Merkel, a Europa. Uma história de amor.

 

  

Goethe considerava-o um semi-deus. Refiro-me a Napoleão. Para o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, a chanceler é maior do que o imperador francês. Não deixa de ter alguma razão. Ambos são resultado de uma revolução, Napoleão dominou a política francesa durante 16 anos, Merkel  conta 12, a Rússia tem um papel central na política de ambos , a diferença é que  as sanções de Merkel causam mais danos a Moscovo do que as tropas do francês.

Hoje, em Colónia, Angela Merkel foi eleita, pela oitava vez como, presidente dos democratas-cristãos com uns soviéticos 96,7 por cento dos votos dos delegados. Como se pode imaginar a chanceler é o partido e a CDU sem a chanceler não é nada. Nenhum político alemão, arrisco mesmo europeu, tem a estatura de Angela Merkel. Primeiro porque não têm o seu poder ( e o poder da Alemanha). Segundo porque o grande luxo da chanceler, que lhe advém precisamente desse poder,  é poder fazer política por sentido de dever patriótico e assente num profundo europeísmo e atlantismo.

Este domingo uma sondagem  mostrava que mais de metade dos eleitores alemães  é da opinião que a chanceler se deve candidatar a um quarto mandato em 2017 ( e sem os sociais-democratas). Na história alemã apenas um político, Helmut Kohl,  cumpriu quatro mandatos. 

De tudo o que sabe de Angela Merkel há uma característica que me agrada: o nunca se ter entregue a um fazedor de imagem ou a um desses gurus para os quais a política moderna se declina em sound-bites certeiros e um guarda-roupa adequado. 

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler é a ausência de gobbledygook no seu discurso.Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano, Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Angela Merkel não é “motivada pela ideologia” como salienta uma das suas biógrafas, “Jacqueline Boysen, “ ela toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos”. Convém acentuar a palavra factos porque eles falam por si.  Olhe-se para o estado da economia alemã, mas não apenas. “ Não devem ser subestimados os esforços que fez para manter a Europa unida. A Grécia não abandonou o euro, os europeus do norte aceitaram pagar bail-outs, a Espanha e outros fizeram reformas que poucos julgaram possíveis, e ajudou a Europa ver-se livre de palhaços como Berlusconi”, escreve uma das revistas que durante os últimos anos mais criticou Merkel, a “The Economist”.

Um dia, quando se fizer a história a frio dos últimos vinte anos, chegar-se-á à  conclusão de que esta mulher foi decisiva para o não desmoronar da Europa e terá um lugar tão importante na história como o de Kohl. Vai uma aposta?


(Este texto é uma adaptação do que escrevi aqui há uns meses). 

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3 thoughts on “Merkel, a Europa. Uma história de amor.

  1. Devo ser dos poucos portugueses em Portugal que não detesta Angela Merkel, antes tem muita admiração por ela. Não duvido, contudo, que antes de europeísta e atlantista, ela seja alemã, mas acho que isso não lhe fica mal.

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  2. Gostava de colocar uma questão à sua consideração : A senhora acha que a maioria das pessoas do comum sabem o que significam os termos “sound-bites” ou “bail-outs”? Eu pessoalmente é que não, desculpe a minha ignorancia. Por acaso não adiantava mais escrever “chavão” e “injeção de liquidez”?

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