A espessura das palavras e do silêncio

  
Custa-me muito olhar para as imagens da agressão ao agente da PSP na Moita que alimentam o noticiário nacional. Habituada que estou à violência, ao cheiro da morte em países distantes, a polícias corruptas, não lhe encontro sentido. Apenas barbárie.

Não há dias comuns quando se é polícia. Há que reeditar todos os dias um compromisso com a resistência. Ter controlo permanente para não reagir às intimidações, às ameaças diárias, ao confronto com os abismos da abjecção humana. Viver numa angústia permanente e assistir ao sofrimento que passa para além da conta. Não é pouco. E a farda não os protege desse músculo que trazem no peito, nem do sal das lágrimas. A dor atravessa a roupa. 
Há uma tira da Mafalda que dizia ” e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar.

As pessoas são todas parecidas. Querem chegar a casa ao final do dia, abraçar os filhos, a pessoa que se ama, esticar as pernas no sofá, ler ou ver televisão, passar os olhos pelo Facebook, tomar uma cerveja ou um vinho. Os pequenos prazeres que fazem esquecer a brutalidade do quotidiano. Alguém que usa uma farda é feito da mesma matéria que nós. Tenho um amigo militar que tatuou no braço o nome do irmão mais novo, morto em Timor e antes de encerrar o caixão lhe colocou dez medalhas no peito, medalhas suas ao serviço de Portugal. Podia contar tantas outras histórias. 

Alguém de quem gosto muito, escreveu-me hoje revoltado. Ele, que é uma pessoa solar e reservada,  estava perturbado. Nunca ninguém pergunta a um polícia se está triste ou como se sente. O meu amigo esteve durante dois anos na Esquadra do Bairro da Boavista, em Lisboa, numa Equipa de Intervenção Rápida, sofreu ameaças diárias, ofensas físicas, viu camaradas ficar feridos. Não há hipérboles para descrever o medo que estes homens e mulheres têm de errar. A condenação pública de um erro da polícia é pronta, a compreensão, para uma profissão plena de riscos e sem qual a nossa tranquilidade ( e acreditem Portugal é apesar de tudo um paraíso) não estaria garantida, é curta. Ser polícia é equilibrar-se num fio muito ténue.
As imagens da Moita sacodem- nos a nós que vivemos do lado confortável da vida, dizem o que não queremos ver. Um dos pilares da humanidade é a compaixão, o outro a coragem.
Há momentos para falar dos abusos, dos erros da polícia, hoje é o dia de atravessar a espessura do silêncio e de agradecer a essas mulheres e homens que diariamente arriscam a vida por nós. 

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15 thoughts on “A espessura das palavras e do silêncio

  1. Sábias palavras, sendo Chefe na PSP, não escolheria palavras mais lúcidas para exprimir o sentimento que todos nós sentimos quando vamos cumprir mais um dia de trabalho, acredite que a maioria do efectivo policial, é profissional e dedicado à causa da segurança pública, muito obrigado pelo texto.

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    1. Não precisa de agradecer. É importante ter lucidez para avaliar o trabalho das mulheres e homens da PSP, eu respeito-o e admiro-o muito.
      Sou das primeiras a criticar e a denunciar abusos de força, porém acredito que a maioria dos elementos da PSP são íntegros e pessoas de bem que merecem a consideração do cidadão.

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  2. Se me causa transtorno o que aconteceu na moita e desejo bastante que prendam os tipos que fizeram isso, também é um momento de reflexao que as policias devem ter pois a falta de solidariedade massiva que existe com esta situacao deve se claramente ao facto de que a populacao já não olha para a policia como seus protectores.

    Nos ultimos tempos o papel da policia é meramente fiscalizador e sancionador e numa sociedade financeiramente pobre como a nossa isso causa muita revolta, alem disso os crimes aumentam os acidentes aumentam e a prevencao diminui em detrimento das coimas.

    Toda a situacai negativa tem um aspecto positivo e como podem ver ( ou nao) a policia deve aproximar se mais da sociedade, prevenir como objectivo e nao sancionar como se a fiscalizacao fosse um objectivo em si

    É o meu conselho

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    1. Sr.º André Luiz, por muito que se tente direcionar a ação policial para a mera ordenação social, pois é aí que se centra o tema das chamadas “multa,coimas”, que está por fora não sabe nem tem que saber qual o efetivo empenhado na fiscalização dos diplomas de mera ordenação social, que ronda 15% do total do efetivo, o facto é que eu digo sempre para olharem para o número de detenções no ambito de processos crime, posso lhe dizer que nesse aspecto as nossas forças policiais não ficam em nada atrás das comgeneres Europeis, mas claro que para o comum do cidadão o impacto de uma fiscalização de trânsito é muito maior porque é essa que fica na retina, as de ambito criminal são presenciadas por muito poucos cidadãos, muitas são realizadas à noite, momento do dia em que o comum dominadas dorme.
      Mas para terminar e para refletir eu direi mais, um país que não consegue ordenar a sociedade no ambito de procedimentos que todos deveríamos adotar, como cumprir todas as prescrições dos variados diplomas de mera ordenação social, está condenado ao fracasso e o resultado está à vista.

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  3. Eu sei que um não são todos mas quando se é agredido por três policias diferentes num espaço de horas sem razão que o justificasse… Dá a ideia que a percentagem de policias “maus” se calhar é um pouco mais alta do que alguns pensam. Eu tinha 16 anos, fui algemado ao ponto de ficar com marcas, puxaram-me as orelhas até fazer feridas, deram-me murros e chapadas, isto na rua e dentro da esquadra com vários policias a ver. Apenas um policia já mais velho me defendeu e aliviou as algemas. O que é que eu fiz? Roubei uns euros e comida à noite de uma esplanada / quiosque, tinha fome… A vida na altura não corria muito bem, cometi erros, mas eu juro que aqueles policias não estavam a defender ninguém, estavam a divertir-se a espancar um adolescente algemado aterrorizado.
    É claro que olho para as imagens e tanto penso que aquele policia no chão ferido pode ser “mau” ou “bom”. Com violência se cria violência.

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  4. Tiago, não duvidando da sua história de vida, que se foi dessa forma é muito mau, mas nestas coisa há sempre o contraditório, ando nisto já lá vão uns anos, já vi e vivi muitas situações de vida degradantes, do pior que o ser humano pode ver, também conheço alguns colegas que numa situação semelhante pagaram a despesa dos jovens e apena lhes disseram para a próxima pede não roubes. Mas não é por isso qua na Instituição é só anjos, porque não é.

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  5. a forças policiais não passam de um gang armado do estado,não me esqueço do que já vi,uma fábrica de confecções onde a maioria era mulheres que estavam a fazer uma manifestação por causa dos salários em atraso e contra os despedimentos coletivos,veio as forças de intervenção e começaram a dar bastonadas,gaz pimenta e com shotguns a intimidar as pobres mulheres que apenas reivindicavam os seus direitos,se existe policias bons;existe mas são como as maçãs ,colocas uma podre perto das boas e ficam todas podres….

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    1. A verdade é só uma se as pessoas respeitassem e cumprissem mais teriam menos problemas com as autoridades pois eu não acredito que qualquer força policial seja agressivo sem ter sido provocado para isso pois eles também são humanos mas quando precisam ligam 112 .

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  6. Tem toda a razão rjfm, são como o João Moutinho, mas sabe que poucos acreditaram naquela teoria, o resultado foi o que se viu.
    Será que tudo o que é manifestações onde a polícia intervém é tudo gente pacífica? Respeito a sua opinião, já agora quando se sentir apertado não ligue o 112, ligue para o BATMAN, o contacto está no facebook, os policias agradecem.

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