Tempo de cerejas *

Uma longa e doce nostalgia apertou-lhe o coração. Não apenas a nostalgia da mulher, mas sobretudo a de a saber pretérito definitivo.
Fora um por acaso que a conhecera. A internet tornou o mundo num lugar sem distância. O algoritmo do Facebook, esse cúpido moderno, sugeriu-lhe que lhe pedisse amizade. O ano aproximava-se do final, era 29 de Dezembro, um daqueles dias onde tudo em volta era o nada. Até a chuva estava sozinha. Obedeceu. Click. Enviou-lhe o pedido. A ela e várias outras, que era um homem cauteloso.
Os caçadores nas savanas preparam a arma quando vêem o leão, já o pescador não consegue ver os peixes dentro do mar, acredita em algo que não vê. S.via-se pescador aguardando sinais dos desígnios do algoritmo, cansado que estava dos dias sempre iguais, trabalho-casa-trabalho, que lhe entranhavam nos ossos um tédio miúdo que o arrefecia como o cachimbo da madrugada.
É um homem bonito, aparência de anjo barroco, olhos de esmeralda expressivos, emoldurados por finas rugas, com um nariz grego e mãos delicadas sempre prontas a corrigir com solenidade desalinhos. Impacienta-o a desarrumação, uma camisa mal engomada enrosca-lhe na pele uma irritação. Tinha os seus Adamastores de divorciado. A Bimby, mãe-mulher-substituta, e a Candy. Para ele era uma impossibilidade lógica sair de casa se máquina não estivesse vazia e no varal, geometricamente estendidas, as peças saídas do programa de poupança. A ordem era a sua cela, muralha que o protegia do acelerar do músculo no traz peito. Tinha o coração  viúvo, fechado a cadeado.
A teimosia dela foi criando fendas naquela muralha. Ela tinha a fúria rebelde das ondas da costa do Índico, queria levá-lo a escolher o longe, agarrou-se teimosamente aquele amor. Queria ser o bolinho de chuva dele, o doce que as mães brasileiras preparam nos dias de temporal para distrair as crianças da natureza lá fora. Mas estamos a adiantar-nos  na história.
É uma verdade que as mensagens no Facebook permitem saltar com facilidade a fronteira do nosso mundo. As banalidades iniciais deram lugar a perguntas, muitas perguntas. Ela perguntava tanto, como que a querer arrancar uma árvore da terra para lhe olhar as raízes. Já não sabia se o pescador era ele ou ela.
Tinha a alma toda num sorriso, uma energia que sobrava do corpo e lhe caia em cachos de caracóis rebeldes. Era desses vinhos que dão tonturas antes de beber e desordenam tudo em seu redor. Ela enviou-lhe telegramas de chocolate e escreveu antiquadas cartas de amor onde deitava o barco da sua vida nas águas dele.
Com o medo dele de sentinela amaram-se, viajaram juntos, percorreram de mãos dadas cidades geladas da Europa. Parecia não haver mapa para tanto amor. S. mostrava-lhe o corpo, não mostrava o coração. Há alguém mais sozinho do que o analfabeto, por escolha própria, da felicidade?
Sem de cansar dos lamentos, ela explicava que os pedaços se apanham, se colam. Deles resultam mosaicos coloridos e que os sonhos não devem ser desperdiçados.
Ele pegava-lhe nas mãos, fazia-as uma, sempre querendo dizer o que não dizia. Incapaz de palavras encantadoras como um colar de missangas ou umas poucas de cerejas.
Misturados num subitamente, ela, que sempre encostara o seu corpo de sabor quente ao dele, dando-se àquele  homem-menino-ferido com a rendição  dos apaixonados, afastou-se e perguntou-lhe: “amor compras-me cerejas?”. Ele ergue-se brusco, responde : “jamais, odeio cerejas”.
Ela sorriu, sentiu pena dele, incapaz de sair da sua cela, de abrir os baús com as toalhas de linho por estrear para celebrar o amor. À despedida desejou-lhe que um dia encontrasse alguém a quem comprasse cerejas.
Em frente ao computador ele pensa naquela mulher tempestade que o levou por caminhos que apenas tinha aflorado em sonhos. E num embalo termo imagina-se a trepar a uma cerejeira colhendo brincos vermelhos, exorcizando advérbios sem propósito nem cabimento: “porém, todavia, contudo”. Ele descobriu no ballet sem coreografia dos sentimentos que a ama.
Ela bloqueou-o no Facebook.
* micro conto experimental

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