Nunca aos domingos 

 

Nas noites de insónia gosto de pensar sobre a fragilidade que habita em nós e que tanto nos assusta. 

Esta madrugada vi um filme antigo, daqueles que se vão adiando e que depois que se vêem impõem a pergunta: como passei 43 anos sem o conhecer?
Sabem aquele instante em que descobre algo simples mas muito especial como uma música, um livro, um filme ou uma comida e quer partilhá-lo com toda gente como um recém apaixonado ? É o caso. O filme que falo é “Nunca aos domingos”, de Jules Dassin e que tem no papel principal a poderosa Melina Mercouri, mulher de beleza nada convencional que seria ministra da Cultura grega.
O enredo do filme é subtil e profundo. Com humor e encanto  é uma crítica a todas as formas convencionais ou receitas de felicidade. Ilya, a personagem principal, é uma prostituta no mais conhecido dos portos gregos, o de Pireu, e é absurdamente feliz. Homero é um filósofo americano que tem como odisseia descobrir porque as pessoas são tão infelizes. A felicidade da prostituta, que para o filósofo representa a Grécia em declínio é-lhe inacessível. Decide redimi-la, salvá-la e sem o saber acaba por salvar-se a si.
Não conto mais para não estragar o prazer de ver o filme. Digo apenas que as questões que levanta podem ser aplicadas à vida de cada um de nós. Ilya a prostituta olhava para a vida com uma generosidade imensa, para a sua e a do outro. Era por isso feliz e tornava os outros felizes. Homero é alguém que o outro que não pense da mesma forma como errado e impuro, como ameaçador e que precisa de ser mudado. Quantas vezes, postos perante os nossos temores, não invocamos a moral, a crença ou a ideologia para disfarçarmos a nossa incapacidade de escutar o outro e de aceitar o que é diferente de nós?
Penso que quanto mais nos fixamos em certezas absolutas, mais fechamos a porta à descoberta de outros olhares e a centelhas de felicidade. A felicidade é rebelião e não receita, em particular aquela receita com que somos bombardeados: felicidade= juventude+beleza+pode+sucesso.
Convido-o a parar. Feche os olhos e procure na memória a última vez em que se sentiu profundamente feliz.
Partilho o meu mais recente: comer as primeiras cerejas do meu jardim em Bona, que me transportaram aos verões da infância quando, com os primos, trepava a cerejeira da avó para pintar os lábios de sumo vermelho e pendurava brincos incomparáveis nas orelhas.
É a nossa fragilidade que nos faz humanos, só alcançamos o outro ao reconhecermos que somos fugazes, que a vida é um fósforo. A nossa fragilidade é a nossa força, a capacidade de a aceitar e de olhar o outro para além dos nossos medos, é a nossa força e a única receita para a felicidade.
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