O homem que amava cães e outras histórias de aeroporto

Assim como as pessoas mais intransigentes lá acordam um dia abertas a tolerância, as mesmo apessoas que destilam confiança em si mesmas já passaram momentos de dúvida e hesitação. Por dúvidas maiores e por inquietações “mirins” como dizem os brasileiros. Devo ou não tirar férias para fazer o caminho de Santiago? Devo aceitar o pedido de desculpas daquela pessoa que tanto me magoou? Devo trocar um emprego monótono mas bem pago por outro menos bem pago porém mais estimulante? 

É aos que insistem que dedico esta crónica. Àqueles que nos dão o empurrãozinho de que necessitamos para avançar. Todos temos “empurradores” na nossa vida.
Estava eu sentada num café do ainda sonolento aeroporto de Garulhos e de olhos presos na Livraria Saraiva em frente. Quase nunca o prazer de combina com a necessidade. Não preciso de mais livros, terei talvez uma dezena ainda por ler, contudo sempre que viajo abro excepções pelo prazer da descoberta (e as livrarias brasileiras são todo um continente para explorar, uma espécie de sobrado noutra rua). Distraída do livro aberto à minha frente, bebendo maquinalmente o cappuccino, vislumbrei um sorriso. 
Não pude deixar de perceber que era eu o objecto do seu sorriso, por assim dizer, convidativo. Como não se desperdiçam sorrisos sorri ao desconhecido de volta. ” Você tem boca de luar”. Ensaiei uma expressão de estranheza. “Conhece a crónica do Drummond ?”. São os imprevistos prazeres do quotidiano. Conversar horas, à mesa do café, sobre Drummond, poesia e viagens, sem pretexto e com a intimidade dos que partilham livros e geografias. À despedida o desconhecido de olhos cheios de claridade, disse-me “viva com sofreguidão” e, lendo-me com um olhar à substância, “entre na Livraria”.
O aeroporto perdera a fisionomia sonolenta e grave. Percorro os poucos passos que separam dos livros. Surpreendida com a docilidade com me submeti às palavras de um penso que tinham “a cor das nuvens quando nasce o dia”. Em jeito de recompensa ofereci-me o extraordinário romance do cubano Leonardo Padura, “El hombre que amaba a los perros”.
PS – obrigada a todos os “empurradores” que me disseram ao longo da vida, “vai em frente”, que insistiram.
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