Desamparo

Na brevíssima passagem por Lisboa, este fim-de-semana, encontrei-me com um amigo de que gosto muito. Encontrar não será talvez o verbo adequado, retomamos uma velha conversa inacabada, conspiramos o necessário sobre política e falamos de viagens e escritores. Dizia o meu amigo que “estava a mudar de pele”. Às vezes por excesso outras por carência, ou porque as lágrimas não cumprem o seu destino natural, que é correr em caudal como ribeira fora de margem, é preciso mudar de pele, como quem muda de casa.

Mudança de pele. As adiadas e as ávidas de vida são a linha condutora do extraordinário romance de Inês Pedrosa, “Desamparo”,que li de um fôlego só.

“Desamparo” é um retrato do Portugal actual. A encenação de um tempo através de personagens com as quais boa parte dos portugueses se identifica com facilidade. O enredo passa-se numa aldeia fictícia, Arrifes, que podia ser qualquer pequena localidade portuguesa, uma metáfora da vida rural, um lugar de partilha, de solidariedade, mas também de crueldade magnificada pela pequenez da aldeia.

O romance de Inês Pedrosa é a história de Jacinta, roubada do colo da mãe, aos três anos, e levada pelo pai para o Rio de Janeiro e do seu regresso a Arrifes, cinquenta anos mais tarde para cuidar da mãe. Emigração, imigração. “As tragédias individuais não são assinaladas por placas, homenagens, celebrações. Falta-nos o tempo para as acolher e são demasiado próximas da nossa vida”.

O enredo começa com uma queda, a de Jacinta, no pátio da sua casa, uma metáfora de todos personagens que são de alguma forma anjos caídos, pessoas no limite da existência. O socorro tarda a chegar e Jacinta estendida no chão, sob um sol de incêndio, pensa no amor da sua vida, “como eu adorava aquele homem, Nossa Senhora. E tanto ele andou atrás de mim para me conquistar. Essa foi a época dourada da minha vida: desquitada, independente. Desejada. Um pedaço de mulher”. Recorda o partos muito difíceis dos três filhos Rafael, Rita e Raul, “os portugueses” no Brasil, “brasileiros” em Portugal. Jacinta morreria sozinha na cama de hospital, “morremos sempre sozinhos. Mesmo de mão dada com a pessoa que mais amamos”. E Raul, o arquitecto que trocou o Brasil por Portugal e acabaria atirado pela crise para um call center, acordaria muitas vezes nos anos seguintes torturado pela culpa de não ter estado ao lado da mãe naquele hospital.

“Desamparo” é um monumental tratado sobre a desesperança da crise financeira, sobre ausência de auxílio e protecção, sobre a solidão e a insegurança face ao amor tardio. E no meio disto tudo a esperança que brota como erva teimosa nas frechas de um muro de pedra. “Este país que se diz triste é afinal um lugar de consolação”.

E onde se encontra a redenção? No amor. Podia lá ser doutra forma. No amor tardio entre a jornalista Clarisse e Raul. Um amor tempestuoso no início  – ” trabalhar para esquecer:o tema da minha existência. Quando conheci o Raul, acreditei que esse tema caducara; viveria para amar e o trabalho deslizaria para o segundo plano que lhe caberia” – como todos amores que sucedem a desilusões passadas – “a verdade é que eu amo Clarisse, não quero perdê-la. Entreguei-me a esta mulher. Domino-a, com o consentimento dela ; nunca uma mulher se me entregara assim( …) diz que sofro de excesso de mimo materno, por isso não aguento uma repreensão. Admito”. Um amor que sobrevive a brigas, a um ano de separação, ao medo. Um amor que faz girar o torno do mundo.

“Desamparo” é um livro fortíssimo. Um ensaio contra a solidão e um convite a mudar de pele. Obrigada Inês, precisava deste livro.

PS – É impossível não dar nota 10 a um livro maravilhosamente escrito e que inclui o Rio, Berkeley e Berlim, as minhas cidades.

Advertisements

2 thoughts on “Desamparo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s