Dos amores pequenos

“Há de se querer o amanhã”, escreveu no belo poema “Mulher”, Carlos Drummond de Andrade. Por vezes penso  que descobrimos tarde demais na nossa vida três artes: a cozinha, a música e o amor completo.

A cozinha não se revela na sua delicadeza e perfeição no ambiente asséptico e formatado da bimby. É um amor feito de lentidão, exige tempo e paciência e sabedoria no momento de condimentar, nada que um desses artificiais molhos ou máquinas de cozinha consigam, podem até enganar o sabor, não ilude todavia a alma. Poucas momentos serão mais sublinhes do que aqueles jantares em que o palato faz amor com os alimentos.

A música descobre-se pela poesia, não entra em nós só porque dispomos de uma playlist no telemóvel ou uma sofisticada aparelhagem Bang&Olufsen. Quantos não trauteiam a Habanera, da Carmen de Bizet, sem lhe conhecerem a letra. “L’amour est enfant de bohème/ Il n’a jamais jamais connu de loi”.

O amor completo pede entrega e disponibilidade de alma. Esta manhã vi um vídeo de uma proposta de casamento. Não era um daqueles pedidos que se tornam cada vez mais comuns em jogos de futebol ou num estúdio de televisão. Trata-se de uma declaração de amor feita ao longo de 365 dias. Todos os dias, durante um ano, nas mais diversas situações da vida quotidiana um homem gravou uma mensagem a dizer porque amava a sua namorada e pedir-lhe que casasse com ele. As mensagens foram editadas e exactamente um ano depois da decisão de pedir a namorada em casamento entregou-lhe o filme. Estes amores assim são como os dias em que o sol vai dissipando a neblina, que o orvalho dá lugar a uma luz intensa que realça o azul metálico do Tejo e transforma o casario cansado de Alfama e as suas velhas telhas em rubis, pedras raras.

Conheço cada vez mais gente que se queixa da solidão, que procura um outro amor após o divórcio ou fim de uma relação. Os segundos e terceiros amores são sempre complexos. Há um passado para trás um ou uma “ex”, filhos, mágoas, vivências que não se querem repetir. E o medo, a incapacidade da entrega. Não quero ser injusta, mas é mais fácil amar-se aos vinte, sem passado, do que aos 30, 40, 50.

Por vezes penso que a palavra “amor”, assim como “mulher/homem da minha vida” são cada vez mais usadas levianamente. Com o desprendimento com que se esquece um guarda chuva num autocarro trocam-se mensagens copiadas de uma qualquer página virtual dessas que anestesiam o trabalho da inteligência e têm a citação pronta a servir. Ou enviam-se “stickers” com corações e rosas virtuais. Sim porque as rosas reais, como os amores completos custam algo.

Vivem-se amores pequenos que se atiram para o chão, como pratos num festa grega, à primeira contrariedade. Qualquer esforço de partilha, e os detalhes são a essência, é visto como supérfluo. O “amor” é olhado na perspectiva do eu, esquecendo que o tu reflecte o eu é que só no reflexo dos olhos do outro se pode ser feliz.
Os amores completos são os imperfeitos, não os impossíveis, são os pacientes, das frases cadenciadas, não os cheios de adrenalina, os que estão preparados para sofrer, para resistir às contrariedades, para conquistar o outro e deixar-se ser conquistado. ” Há-de se querer o amanhã”, não apenas o agora. Vivem dos detalhes, “de tudo ao meu amor serei atento” e de cada momento.

Pode viver-se a vida toda a cozinhar com a bimby, a ouvir música na M80, a viver amores pequenos, pode-se optar pelo conforto do sofá, a fazer zapping na televisão, a namorar pelo Messenger e ficar tolhido pelo medo, sonhando mas sem dar um passo para concretizar o sonho, esse nunca saberão o que é acampar no Grand Canyon, descer os rápidos, atravessar o deserto. Às vezes os grandes amores, os amores completos são Casablanca, não tem como dar certo, outras vezes têm um final estupidamente feliz. Há as vidas mornas e as outras.”
Eu possa me dizer do amor (que tive):/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.”.

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7 thoughts on “Dos amores pequenos

  1. Que belo texto!
    Fiquei a pensar nesse ser mais fácil amar aos vinte. É verdade que estamos mais livres de passado, mas ainda estamos demasiado cheios de ilusöes e regras. Aos quarenta (olha o poema do Drummond) estamos mais perto de nós, mais capazes de ser, em vez de “dever ser”.
    O que me parece que corre mal a esses solitários que procuram um amor é que andam à procura de alguém para preencher um vazio e tomar o seu lugar pré-definido num guiäo imaginário. Näo há guiäo, apenas risco. E o vazio nunca foi bom conselheiro.

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