Da palmada no rabinho

O discurso do bem cabe em poucas afirmações. Os pais querem o melhor para os filhos. Há que disciplinar para não tornar a criança num “tirano”. O pai ou mãe não são amigalhaços. Perante estes factos , e todos os factos são sempre inquestionáveis no discurso do bem, bater nos filhos é  um “direito”. Se lhe quiserem “sacudir as moscas” podem.  E alguns progenitores também o fazem. Interregno para vómito.

Li com espanto  e confesso alguma repulsa as declarações do Papa Francisco sobre “a palmadinha no rabinho das crianças”. Numa audiência geral terá desvalorizado a palmada desde que não fosse dada no rosto. Esteve mal, muito mal o Papa.

Os filhos confiam nos pais, como mapa e bússola para vida, agarram-se à essa confiança ( e a esse amor) como um bote de salvação num mar revolto. Cada palmada, cada grito é uma cicatriz.

As crianças e os jovens têm o inalienável direito à integridade do seu corpo e a uma educação livre de violência. Quanto mais cedo se começar a falar com as crianças sobre estes temas, maior será a prevenção e a detecção dos casos de abuso, ou seja, a possibilidade de criarmos adultos autónomos e equilibrados ( com menor probabilidade de baterem nas mulheres e nos seus próprios filhos).

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18 thoughts on “Da palmada no rabinho

  1. Bem, a educação já é em si um obrigar a respeitar algo. As regras de conduta impõem-se. Obrigam-se as crianças (e os adultos com penas, muitas, coimas, prisão, etc) a respeitar as regras.

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      1. Sem violência?
        Multar não é violento? E meter na cadeia? E utilizar armas como a polícia por vezes faz, algumas delas com legitimidade, como no assalto a um banco, há uns anos, em Campolide (salvo erro)?
        Só as crianças devem ficar isentas destes procedimentos? Até que idade? Umas palmadinhas são absolutamente proibidas, independentemente do que a criança faça?
        É fácil dar exemplos de desacatos de crianças que não se resolvem sem alguma (proporcionada, claro) violência. Quando eu andava na escola nem sabe o que fazíamos. Serão agora as crianças mais mansas? Não acredito.

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  2. Neste ponto tendo mais a concordar com a Maria Elsa. Também eu levei algumas palmadas em criança e hoje concluo que não só foram bem dadas, como não deixaram cicatrizes na minha relação com os meus pais.

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      1. Maria Elsa tenho o privilégio de viver num país onde a “palmadinha” é criminalizada. Acredito na palavra e no exemplo ( e são inúmeros os estudos que documentam a importância destes dois factores) como pilares estruturantes da educação. Se por vezes é necessário recorrer a sanções na educação que o sejam sobre outra forma que não a punição corporal.
        Não se já leu relatos de vitimas de abusos de castigos corporais , algumas conseguiram perdoar (ou aceitar a agressãi ) os pais ou a quem a tinha agredido pois só desta forma se conseguiam estruturar e de alguma reencontrar o equilibrio interior ( há exemplos muito comoventes de vítimas de rapto ou de prisioneiros de guerra).

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    1. Joana aprovo o seu comentário apenas porque Je suis Charlie e acredito que todos têm o direito à opinião. Na Alemanha ( e em muitos outros países) as crianças têm o direito à a educação livre de violência e coacção onde se inclui a “palmada”.

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  3. Acho que neste tema, como em tudo na vida, não se deve entrar em grandes extremos.
    Eu nunca levei nenhuma palmada dos meus pais, e creio que nunca irei dar aos meus filhos, no entanto nem todas as famílias são iguais e as crianças têm temperamentos diferentes, nem todas ficam com cicatrizes só porque levaram uma palmada.
    Trabalho numa escola pública e posso afirmar que estamos perante uma geração muito mimada e com baixa resistência à frustração. Não estou a dizer que se deva dar uma palmada, nada disso! Mas com tanta pedagogia estamos a cair no erro oposto! De os subproteger com medo de os “traumatizar!” Cada caso é um caso e tudo se quer com bom senso.
    Minnie

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  4. Sobre o Papa: como dizes, ele também é fruto da sua socialização, e por isso não acha tão grave uma palmadinha no rabo. Mas estamos todos a esquecer que ele se referiu a isso não para dizer “pais! batam nos vossos filhos!”, mas para louvar o caso de um pai que nunca batia na cara dos filhos, porque achava isso indigno. No fundo, o Papa queria lembrar aos pais que há limites para o uso da “palmada pedagógica”. Lembra aquele clérigo muçulmano a ensinar aos homens os limites da sua violência quando educam a esposa (não pode ser na cabeça, não podem deixar marcas no corpo, etc.). Acho curioso que todos nós fiquemos chocados com o clérigo muçulmano, e muitos de nós não fiquem chocados com a cena de um adulto a bater numa criança. Penso que é uma questão de mentalidade: algum dia o clérigo muçulmano vai começar a dizer que não se pode bater numa mulher, e nós todos vamos perceber que não podemos bater em crianças.

    Sobre bater nas crianças: penso que bater não é educar, é ser mal educado e dar aos filhos um péssimo exemplo de má educação.
    Não são apenas as crianças que são diferentes, os pais também são. Há os que conseguem educar sem bater, e há os que optam pela palmada porque não sabem fazer melhor. A questão nunca é “educar ou não educar”, mas “como educar”. Bater não é educar, é dominar.

    Sobre as consequências de bater: há aqui uma compilação de resultados de vários estudos sobre o que acontece às pessoas que apanharam em criança:
    http://www.upworthy.com/the-science-of-spanking-what-happens-to-spanked-kids-when-they-grow-up?c=ufb2

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  5. Ainda não descobri porque é mais escandaloso bater num adulto do que numa criança. Quando falamos em violência doméstica (contra as mulheres), toda a gente se escandaliza. E muito bem! Mas porque se reage de maneira diferente, quando é a criança a vítima da violência?
    😦

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