Viagens na minha terra (Nuremberga)

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Nuremberga é uma aguarela. Adorável. Pintada de pedras medievais.

Feita da geometria incerta das Fachwerkhäuser, dos rasgos de cor dos gerânios no Verão, da neve que cobre as velhas muralhas de uma camada de açúcar e dá à cidade uma luz de esplendor.Nuremberga é o Mercado de Natal centenário, perfumado pelas especiarias dos Lebküchen e pelo aroma apimentado da Bratwurst. E a capital mundial do brinquedo.

Cidade imperial e de cultura. As primeiras cartas celestes foram aqui desenhadas pelo pintorrenascentista Albrecht Dürer. As cartas marítimas que orientariam Cristóvão Colombo na descoberta da América traçaram-se aqui. A primeira edição de A Revolução das Esferas Celestes, de Copérnico, foi publicada em Nuremberga e também aqui se iniciou a era ferroviária na Alemanha.

Este é o lado solar.

Mas é impossível descrever a idílica cidade atravessada pelo Pegnitz sem a memória da barbárie nazi. Mais do que Munique ou Berlim, a segunda cidade da Baviera tornou-se – injustamente argumentam alguns historiadores – num sinónimo do nacional-socialismo.

As odiosas leis raciais de 1935, antecâmara do Holocausto, trazem o nome de Leis de Nuremberga. O NSDAP tornou a cidade no palco privilegiado dos seus congressos, oito realizaram-se aqui. Imortalizados pelo génio maldito do cinema alemão, Leni Riefenstahl, em O Triunfo da Vontade. O monumental documentário, de 140 minutos, sobre o Congresso de Nuremberga – que decorreu entre 4 e 10 de Setembro de 1934 sob o lema Congresso da Unidade e da Força – que mostra o Führer como ele queria ser visto, e como massas humanas, perfeitamente coreografadas, podem ser dirigidas.

O Triunfo da Vontade, o melhor filme de propaganda alguma vez realizado, hipnotizará os alemães, consolidando definitivamente a posição política de Adolf Hitler.

Ainda hoje, à distância de setenta  anos, os bastidores reais do filme nos Reichsparteitagsgelände,no parque de Luitpoldhain, gelam o sangue. Pela imponência das “palavras de pedra”, de Albert Speer, oarquitecto de Hitler, e pela demente megalomania do Terceiro Reich.

Congresso partidário é, aliás, no contexto do nacional-socialismo, uma expressão que induz em erro. Os congressos do NSDAP eram manifestações de massas, com centenas de milhares de participantes.“Nós, que damos forma à política alemã moderna, sentimo-nos como artistas aos quais foi confiada a alta responsabilidade de formar, a partir da massa bruta, a imagem sólida eplena do povo”, reivindicava Goebbels.

Nuremberga tornou evidente, pedindo as palavras emprestadas a George Steiner, que se pode ler Goethe ou Rilke à noite, tocar Bach e Schubert, e cumprir a rotina do trabalho em Auschwitz pela manhã.

O princípio e o fim do nazismo

Se a ascensão fascista teve aqui lugar, só aqui podia acontecer o fim do ciclo. Na Nuremberga, destruída a 90 por cento pelos bombardeamentosaliados, a expressão suprema da barbárie europeia do século XX sentou-se no banco dos réus.

A 20 de Novembro de 1945, começou na sala Schwurgerichtssaal  no Gerichtsgebäude o julgamento de 22 dos principais criminosos de guerra nazis. Sem Hitler, Himmler ou Goebbels, que se haviam suicidado.

Durante 11 meses foram ouvidas 240 testemunhas – que revelaram a dimensão do extermínio dos judeus na Europa – e escritas 16 mil páginas de actas. A 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1946 foram pronunciadas 12 sentenças de morte, sete penas de prisão e três absolvições. Os princípios legais que fundamentaram as sentenças no processo principal de Nuremberga (até 1949 houve outros 12 julgamentos subsequentes , menos conhecidos, contra 177 representantes da justiça, médicos, militares, agentes económicos ) foram reconhecidos pela Assembleia Geral das Nações unidas como Princípios de Nuremberga, introduzindo o conceito de que os indivíduos e os Estados estão sujeitos à lei internacional, o que implica limites à sua soberania. Estes princípios foram adoptados pelo actual Tribunal Penal Internacional.

À guerra seguiu-se uma reconstrução com rigor milimétrico que permite ainda hoje imaginar a importância e o poder desta antiga “capital da Idade Média”, com as suas magnífi cas igrejas, o Burgoe muralha de cinco quilómetros que rodeia a Altstadt. Reconstruir – e foi um processo polémico – não significou em Nuremberga recalcar o passado. A cidade dotou-se, em 1993, de uma “rua dos direitos humanos”, uma instalação do artista israelita Dani Karavan, à entrada do Museu Germânico (o maior museu alemão e um dos maiores museus do mundo, com uma área de exposição de 50 mil metros quadrados e 1,2 milhões de objectos relacionados com o espaço cultural germânico). Em colunas de pedra estão gravados os 30 artigos da Declaração Universal do Direitos Humanos de 1948. A instalação simboliza o capítulo mas negro da história de Nuremberga e simultaneamente a esperança, o triunfo da humanidade sobre a barbárie. No ano 2000 a UNESCO atribuiu a Nuremberga o prémio “Educação para os Direitos Humanos”. Um ano mais tarde abriu as portas do Centro de Documentação no Reichsparteitagsgelände. Nos 1200 metros quadrados da (exemplar) exposição permanente – Fascínio e Violência – recorre-se a diversos media para contextualizar a relação entre a ideologia nacional-socialista e a arquitectura, e as sequelas de 12 anos de hipnose.

Nuremberga é uma aguarela de Dürer. Esboçada a carvão por nove séculos de história, enegrecida a sépia pelo nacional-socialismo e colorida de forma indelével pela democracia.

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