Cabul, Bona: uma história de amizade

O Mercedes com Wilfried Sefke.
O Mercedes com Wilfried Sefke.

Pertenço à arcaica espécie dos amantes das coisas antigas, com as marcas do tempo, aquelas que tem a magia do genérico de um filme que nunca acaba de começar. Deslumbrei-me por isso por esta história de dois homens,uma amizade, uma viagem de Cabul a Bona e uma luta desigual contra o esquecimento.

Recuemos aos anos cinquenta do século passado e aos 23 anos de Otto Spieth. Descendente de uma família de industriais do sul da Alemanha, é enviado pelo pai para o Afeganistão, para gerir uma fábrica. Na Cabul de então os Beatles eram mais famosos que Alá e as mulheres usavam mini-saia. Bon vivant e cansado do motorista, o milionário alemão, encomenda, em 1959, um extravagante Mercedes 219 Ponton, de cor mostarda e tejadilho vermelho. Ainda hoje no Afeganistão há quem se recorde desse automóvel. Nem sempre é efémera a glória.

De Estugarda até Génova, o Mercedes seguiu por via terrestre, depois foi transportado por navio até Karachi. Otto Spieth conduziria sozinho os mais de dois quilómetros, de paisagem de beleza cortante e intacta, que separam Karachi de Cabul.

Duraria exactamente 19 anos a paixão do industrial pelo Mercedes. Durou até muito tempo, dadas as circunstâncias e as estradas afegãs. Em 1978, durante a revolução comunista, o alemão,o “segundo rei” do Afeganistão como ficou conhecido, é ferido com gravidade por soldados russos. Regressou à Alemanha deixando tudo para trás, a casa, a fábrica com os seus mais de cinco mil empregados e o Mercedes 219.

É aqui que entra outro alemão,Wilfried Sefke. O diplomata Sefke e o industrial conheceram-se, em 1976, numas das lendárias festas da Embaixada alemã em Cabul. Era Weiberfastnacht , a quinta-feira que antecede a semana de Carnaval e que abre a “quinta estação” do ano, como lhe chamam os alemães.

Os dois homens tornaram-se íntimos e o diplomata interveio para ajudar o amigo a reaver parte dos bens. Como gesto de gratidão Otto Spieth oferecer-lhe-ia o Mercedes.

No inicio da guerra civil afegã, Wilfried Sefke foi colocado na Argentina. Antes de partir deu instruções para que o automóvel fosse enviado Alemanha. Meio ano mais tarde o contentor chegaria a Troisdorf, perto de Bona e o Mercedes seria sentenciado ao esquecimento da garagem. Sem saber que utilização  lhe dar – as missões diplomáticas suceder-se-iam, Albania, Cuba, São Petersburgo – o diplomata cede o automóvel a um sobrinho, que o acabaria por o vender.

Com o fim da carreira diplomática e o regresso Bona, numa Weiberfastnacht, em 2008, o diplomata decide procurar o Mercedes, que lhe devolve as memórias dos anos passados em Cabul e da amizade com Otto Spieth,

Durante anos a busca não teve sucesso e Wilfried Sefke nunca imaginou reencontrá-lo. Até ao surpreendente desenlace, 2014, o automóvel reaparece numa oficina de restauração de Oldtimer em Bona, a poucos quilómetros da casa do diplomata. “Com os pneus originais e as ferramentas que eu havia guardado no porta-bagagens em Cabul”.

A separação é definitiva. O Mercedes tem agora outro dono – por vezes esquecemos não podemos possuir  as coisas porque elas durarão muito mais do que nós – mas a memória dos dias vividos por inteiro permanece debaixo da pele.

PS- Em Junho o Mercedes, agora completamente restaurado, irá participar nos festival de Oldtimer de Bona. Otto Spieth continuou a sua ligação ao Afeganistão apoiando os deficientes causados pelas guerras.

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