Perguntas sem resposta ou a questão do diminutivo

Quando eu era muito pequena tratavam-me por um diminutivo. E esse nome tinha a suavidade da seda, dava-me uma grande tranquilidade e protegia-me das dores do mundo.
“Não é a casa que nos abriga/ nós é que abrigamos a casa,/pois é a ternura que sustenta o tecto”. Como a vida não é um poema de Mia Couto, mudei de tamanho e o petit nom cedeu lugar ao “Helena”, com todas as suas associações (por favor não mencionem a palavra Tróia à minha frente).
Por vezes sinto a falta do diminutivo – não, não vou confessar qual era, nem que me torturem com cócegas – ou não fosse a minha natureza uma caligrafia inacabada. Quem não tem “ouvidos gulosos”?

Estava eu hoje entretida com estes pensamentos na fila de trânsito da autoestrada que liga Bona a Frankfurt, quando tropecei, ou melhor o iPhone tropeçou graças ao Google almighty, num texto do Luis Fernando Veríssimo sobre o uso do diminutivo no português doce falado no Brasil.

“O diminutivo é uma maneira ao mesmo tempo afetuosa e precavida de usar a linguagem. Afetuosa porque geralmente o usamos para designar o que é agradável, aquelas coisas tão afáveis que se deixam diminuir sem perder o sentido. E precavida porque também o usamos para desarmar certas palavras que, na sua forma original, são ameaçadoras demais”.

No Brasil, usa-se o diminutivo sobretudo em relação à comida.”Nada nos desperta sentimentos tão carinhosos quanto uma boa comidinha. – Mais um feijãozinho?
O feijãozinho passou dois dias borbulhando num daqueles caldeirões de antropófagos com capacidade para três missionários. Leva porcos inteiros, todos os miúdos e temperos conhecidos e, parece, um missionário. (…) – E quem sabe mais uma cervejinha? – Obrigadinho. O diminutivo é também uma forma de disfarçar o nosso entusiasmo pelas grandes porções. E tem um efeito psicológico inegável. Você pode passar horas tomando “cervejinha” em cima de “cervejinha” sem nenhum dos efeitos que sofreria depois de apenas duas cervejas”.
Delicioso não é?
Há que endurecer-se, mas jamais perder a ternura. Só ela salva.

PS – Será uma transgressão ou apenas uma transgressãozinha usar o iPhone quando se está parada – p-a-r-a-d-a- no trânsito ou nos semáforos? Se não fossem esses momentos de rebeldia este blog, cuja maioria dos posts é escrito no telemóvel a caminho de algum lugar, seria uma casa vazia.

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