Puxaste-me para o fundo dos teus olhos*

A tese das almas gémeas é uma fraude. Não sou eu que o digo, é o New York Times, num longo artigo publicado este fim de semana e que fez a delícia das redes sociais.

Conto-vos tudo. Há cerca de vinte anos o psicólogo Arthur Aron fez com que dois estranhos se apaixonassem em laboratório, acabando mesmo por casar. Em traços breves, o estudo do norte-americano, retomado pelo jornal, consistia na resposta a um conjunto de 36 perguntas, que mediavam entre “qual é a sua memória mais terrível” a “qual é o papel que a feição e o amor têm na sua vida”. A resposta às perguntas foi criando proximidade interpessoal entre os participantes do estudo. Uma vez terminada a fase de respostas os dois participantes tiveram de se olhar nos olhos, em silêncio durante quatro minutos. Ou seja o que pretende demostrar é que o amor ou o apaixonar-se não “acontece”, não “bate”, mas pode ser condicionado.

Não sei se alguém, entre os que generosamente pousam os olhos neste blog, alguma se dedicou a pensar sobre isto: é “programável” o amor? É uma escolha?

À primeira vista o estudo pode parecer um disparate, como muitos que nas ultimas décadas se têm dedicado a esmiuçar os factores que levam dois seres a bastarem-se de um sorriso para levarem consigo o outro. Há nele no entanto matéria para reflexão. Vejamos: ao responder a perguntas, que vão aumentando de intimidade e de profundidade e sobretudo ao encontrar disponibilidade para escutar o outro está-se a criar um laço. Laço que só é possível quando se baixam todas as defesas, quando se conversa sem que nenhuma das ocorrências da vida interfira no que temos para dizer. É o que falta em tantas relações, que falham à partida pela incapacidade de comunicar. As histórias parecem mudar pouco e repetir-se muito porque raramente são vividas na sua intensidade.

Todos somos retalhos de iluminações e de mágoas e se encontrarmos alguém (ou permitirmos que alguém nos encontre) que nos pegue pela mão e nos puxe para os seus olhos, substituindo-se ao céu, a probabilidade de nos desassossegar o coração, de nos levar a pensar tudo de novo, é grande.

É para isso que serve o artigo do New York Times, para lembrar que a nossa vida é o que quisermos que ela seja e que o amor também pode ser uma escolha.

* a frase é de um poema de Nuno
Júdice.

PS – Lido com política todos os dias, não me tem apetecido escrever sobre ela.

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2 thoughts on “Puxaste-me para o fundo dos teus olhos*

  1. Obrigada pela partilha do artigo que vem confirmar o que, ao fim ao cabo, testamos ainda na adolescência quando segredamos a um amigo “olha que a Y gosta de ti” e, subitamente nos sentimos grandes ao ver nascer uma súbita paixão entre dois desconhecidos.
    Mas o contrário também é verdade, naqueles casais que viveram grandes amores e um dia, ao acordar, encontrar um estranho deitado ao seu lado, como prova de que, se deixarmos de alimentar a intimidade, a cumplicidade, e nos esquecermos de olhar o outro nos olhos, o amor acabará por nos fugir.

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    1. Eu penso que não há receitas para o amor. Há a atracção ( ou a química) como lhe quisermos chamar, e desta chama ( que tem de ser alimentada ) pode acender-se uma fogueira (ou não ). De qualquer forma o “investir” na proximidade, o saber escutar e o olhar o outro nos olhos são a essência de qualquer relação.

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