O poder da frustração

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Vivemos num tempo em que se sacraliza uma vida lisa e sem riscos. Quando alguém tem um problema, o primeiro conselho que se lhe dá é “tens de aprender a acreditar mais em ti”. A auto-estima é a nova deusa e a origem de todos os males parece estar na sua falta. Não há um manual de auto-ajuda, nem uma dessas páginas de mensagens do Facebook que não o propague.

Que alguém goste de si e tenha uma boa imagem de si próprio é algo positivo, desde que este foco no “me, myself and I” não resulte da ausência de vínculos interiores. O que quero dizer com isto é que a vida é uma sucessão de corredores que abrem para corredores e não uma sala espelhada.

Parece arredado da cartilha dos adoradores da sagrada-auto-estima o direito à frustração, tanta é a ansiedade em serem “perfeitos”, sentirem-se “perfeitos”, “amarem-se a si”. A frustração é um dos mais poderosos sentimentos que existem, sem ela a literatura, a arte teriam a crueldade de uma prisão, isto é seriam vazias. Sem ela a existência perderia o seu grande sentido: a reinvenção.

Centenas de páginas de psicologia abrem-nos os olhos: a frustração pode motivar a querer vencer as dificuldades, os obstáculos. Ou simplesmente ajudar-nos a aceitar a nossa dimensão humana. Limitada. Mais do que “cultivar a auto-estima” porque não reconstruir a proximidade que é o outro nome da ternura ou encarar a vida como uma dança em se rodopia apenas  pelo prazer da música?

Encarar nos olhos a frustração, o fracasso, dá mais trabalho do que gostar de nós (e dá menos likes no Facebook ou nos blogs).

PS- Uma das maiores frustrações da minha vida é ser desafinada, o que não me impede de me trautear os sambas do Vinicius (para desespero das minhas filhas) ou de ter uma admiração imensa por quem não falha uma nota. Outra é que o Sporting…bem mudemos de assunto.

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5 thoughts on “O poder da frustração

  1. Fantástico! Helena: não existe maior desafinada que eu (filha de uma mãe afinadíssima), o q não me impede de “gritar/cantando” em alta voz quando viajo sozinha no meu carro… ~ e depois temos o Sporting Clube de Portugal! Amanhã lá estarei, como sempre, assim o trabalho mo permita! E, era por aqui que queria começar, que maravilha de texto: “O que quero dizer com isto é que a vida é uma sucessão de corredores que abrem para corredores e não uma sala espelhada”, concordo tanto, mas tanto, ao ver desfilar tanta feira de vaidades bacocas e ocas….. Aguardo o seu livro, creio que é uma promessa para 2015, não é? E aguardo-a em Lisboa para a prometida ida a Alvalade! Felicidades Helena! Que seja um óptimo 2015

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  2. Ah, mas o segredo da auto-estima é mesmo esse: amarmo-nos, não apenas quando somos “perfeitos”, ou nos sentimos “perfeitos”, mas também quando erramos, quando estamos frustrados e envergonhados, quando somamos fracaso atrás de fracasso. Amarmo-nos quando somos, ou nos sentimos, “perfeitos” não dá trabalho nenhum. Essa é uma ideia errada de auto-estima.

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