De que são feitos os dias?

Acordei a pensar numa frase: “de que são feitos os dias?”. Com certa frequência acontece-me sonhar com poesia, com frases ou versos de músicas de que gosto. “De que são feitos os dias?”, é o titulo de um poema de Cecília Meireles.

Vivemos dentro dos dias, dentro deles rimos e choramos, desobedecemos ao preceito e colhemos o incerto, inventamo-nos e arrependemo-nos.

Habitualmente no final de um ano ou no início do que o sucede fechamos para balanço, a reflectir no que fizemos, no que gostaríamos de ter feito. Quem traça a curva do horizonte somos nós? Ou os nossos medos?

Algures numa das suas crónicas Martha Medeiros escreveu que só nos arrependemos do que não fizemos. Não é sempre verdade, mas devia se-lo.

Um dos meus filmes de sempre é “As Pontes de Madison County”. O argumento é simples, como o são os grandes sentimentos. Francesca, interpretada por uma extraordinária Meryl Streep, vive numa quinta perdida no meio do nada, tem uma existência decente e morna até conhecer Robert (Clint Eastwood) um fotógrafo de passagem. Em apenas quatro dias, em que cederam à divina inconsciência do prazer, em que foram piano e partitura, nasceu o amor pelo qual esperaram toda a vida. “Só tenho uma coisa a dizer, apenas uma; nunca voltarei a dizê-la a ninguém, e peço-te que lembres dela: num universo de ambiguidades, este tipo de certezas só existe uma vez e nunca mais, não importa quantas vidas se vivam”. Nem todo o sentimento contido nestas palavras – comparáveis em poesia só a We’ll always have Paris – foi suficiente para que Francesca quebrasse as convenções – se divorciasse – e tivesse a coragem viver plenamente. Como um sol privativo o vazio no peito acompanhou-a até à morte.

Serão invariavelmente os grandes amores os impossíveis? Ou serão os impossíveis os mais confortáveis? Habituados à imaginação da pele não conseguimos ultrapassar as decepções da realidade ?

Romper convenções e arriscar-se no desconhecido requer força, um querer visceral, um querer mesmo, o único que abre qualquer cancela.

Falei de amor, o mais simples dos sentimentos, podia falar das outras coisas de que são feitas os dias. O que distingue um explorador de um empregado-de-escritório-que-sonha-ser explorador é esse querer mesmo, o fugir da mediocridade e da existências mornas. Quem sonha atravessar África encontra como, quem pretende aprender a tocar piano descobre tempo. Se quiser mesmo, ou melhor, se tiver a coragem de querer.

Convém pois fazer uma lista do que não posso deixar de fazer este ano: o curso de mergulho, publicar o romance e olhar-me ao espelho tendo a certeza vivi. Integralmente.

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2 thoughts on “De que são feitos os dias?

  1. Ansiosa por ler esse romance. Por vezes olho as vidas mornas com a sensação de que a vida é mais fácil assim. Mas não consigo. Talvez o anseio explorador não seja uma escolha, corre-nos no sangue. Para o que nos sacode de alegria e para o que nos dói tanto que não nos adormece. Um abraço Helena, por escrever assim.

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