Alemanha quando penso em ti…

Charlie-Hebdo-MohammedkarriO atentado contra o Charlie Hebdo não foi apenas uma prova da vulnerabilidade das sociedades abertas e democráticas face aos extremismos. Além do horror, das vidas destruídas o atentado terrorista foi insuportável porque ataca a essência dessas sociedades: a liberdade de expressão e de imprensa e a capacidade de aceitar os que pensam de forma diferente, mesmo que se discorde deles.

Como hoje se escreveu no Maschamba, “ pode gostar-se mais ou menos, pouco ou mesmo nada de publicações como o “Charlie Hebdo” mas matar a sangue frio quem desenha escreve, cria, denuncia, critica, é um passo atrás naquilo em que acreditamos, uma nova ordem em que a violência valerá mais que a palavra, que o medo se sobreporá a tudo e a todos”.

Se a Europa se deixar ficar prisioneira do medo então caminharemos para o mundo kakfiano de Huntington. O atentado de Paris  – a par com o de Londres e Madrid – é dos mais duro abalos que a Europa sofreu desde o final da guerra fria, obrigando-a a acordar para uma realidade que estava habituada a olhar de soslaio: há extremistas entre nós e há uma crescente islamofobia, que em países como a França e a Alemanha ganha dimensões assustadoras.

Um estudo da Fundação Bertelsmann publicado hoje mostra que na Alemanha um número crescente de pessoas que considera o Islão e os muçulmanos como “uma ameaça” (57 por cento dos inquiridos) e como não sendo “compatíveis com o mundo ocidental” (61 por cento). Preocupante é a constatação que esta hostilidade se estende da direita à esquerda, passa por pessoas com formação universitária e pela classe média, ou seja pelo “cidadão comum”, não necessariamente hooligan, neo-nazi ou xenófobo. Isto apesar da grande maioria dos 4 milhões de muçulmanos que vivem na Alemanha estarem perfeitamente integrados e se orientarem pelos valores democráticos da República Federal da Alemanha.

Segundo o estudo, 40 por cento dos interrogados “consideram-se como estrangeiros no seu próprio país” e 21 por cento “proibiriam a imigração muçulmana para a Alemanha”. Para a Fundação Bertelsmann a islamofobia é comparável ao anti-semitismo que grassava na Alemanha no século XIX.

Duas notas breves de análise e contextualização: a imagem dos muçulmanos na Alemanha é cunhada pelos extremistas islâmicos que residem no país, sendo parte da “culpa”  – a palavra neste contexto é areia movediça – atribuída às organizações de muçulmanos e imans, que apesar de se distanciarem dos actos violentos têm demonstrado uma estranha apatia e não encontram, ou tem encontrado,  palavras e actos claros de condenação. A classe política, dos conservadores à esquerda, e os media – com o tablóide Bild e o “esquerdista” Der Spiegel à cabeça – têm contribuído para reforçar a imagem negativa do Islão na Alemanha.

Há aqui matéria para um debate muito sério e que importa fazer. Em democracia a “rua” não deve ser desprezada, não porque tenha razão, mas para se entender porque se misturam populismos de direita nas suas diversas nuances – neonazis, hooligans, nacionalistas – e cidadãos “comuns”. As consequências de não a escutar podem ser terríveis.

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3 thoughts on “Alemanha quando penso em ti…

  1. Primeiro: em Lisboa nunca fui apaplpada.
    Segundo: porquê que na Alemanha há lugares de estacionamento para as mulheres (mais próximos da estações de comboios, por exemplo)?. Parece que é preciso protegê-las.

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    1. Na Alemanha há lugares de estacionamento para mulheres porque habitualmente são elas que cuidam dos filhos e daí a necessidade de ficarem mais próximas de entradas ou saídas de locais públicos. É naturalmente também uma medida que visa prevenir abusos.

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