Marie: dançando com fantasmas

Niangara é um beco sem saída. Um daqueles lugares no fim das estatísticas ou no topo delas se a contabilidade for de violência e mortos.
Acabo de ler uma entrevista com uma psicóloga brasileira que trabalha para os Médicos sem Fronteiras nos lugares mais remotos e perigosos do mundo, entre eles Niangara no Uganda.

Na entrevista, Débora Boal, conta histórias de várias missões, Líbia, Haiti, Guiné-Conacri. Retive uma delas. A de Marie, uma mulher ugandesa. “Fazia 24 horas que a gente tinha chegado quando Marie apareceu. Uma mulher muito magra, alta, com a roupa completamente rasgada”.
Marie tinha uma existência tranquila, tão tranquila como podem ser as vidas onde falta quase tudo, menos amor. Morava com os seis filhos e o marido. Um dia quando regressava de uma pequena feira de rua alguém gritou: “corre, mataram o teu marido na estrada. Foge porque eles [rebeldes do LRA] vão matar-nos a todos”. “Mas eu tenho seis filhos dentro de casa”. Correu para a aldeia com o bebé amarrado nas costas. Conseguiu retirar os filhos de casa e esconder-se na selva. A dado momento apercebeu-se que com ela estavam apenas cinco crianças. Faltava a menina de dois anos. Deixou os filhos na floresta e correu de volta para aldeia, sempre o com o bebé amarrado nas costas. Quando chegou viu a filha de dois anos arder dentro do que restava da sua casa. Com a força do desespero atravessou a selva até outra aldeia onde tinha familiares. O suposto refúgio revelou-se um pesadelo. O LRA chegou a esse povoado. Marie foi violada por dezenas de homens [ a violação como arma de guerra é sempre colectiva, conheço mulheres que foram violadas por 30, 40 homens]. Saciados de sexo e de humilhação os rebeldes mataram-lhe os filhos restantes e raptaram-lhe a filha para se tornar escrava sexual. Quando Marie chegou a Niangara tinha apenas o bebé amarrado nas costas. “Eu não tenho nenhuma razão para viver”. E é aqui que entra a psicóloga brasileira. Débora escutou Marie. Antes de se debruçar sobre as feridas da alma tratou de algumas questões de ordem prática: onde Marie iria dormir, o que iria comer, o que iria vestir. Depois perguntou-lhe se se lembrava da última vez em que tinha sido feliz .”Hoje eu não lembro, mas eu vou tentar me lembrar”. Uns dias mais tarde Marie recordou-se: “a última vez que fui feliz foi quando dancei”.

A psicóloga ficou a pensar em como criar um grupo terapêutico, “porque a Marie foi só a primeira. Como ela, nessa missão, houve mais de 200 mulheres que eu atendi, sozinha, num espaço de um mês e meio, dois meses. Mulheres e meninas violadas. Meninas de dois anos de idade, de três anos de idade, de 10, 15, que eram violadas, mutiladas. E eu lembro que o grupo terapêutico nessa comunidade foi de dança. Elas dançavam e com a dança elas contavam a sua história. Era muito bonito. Eu não entendia nada da música, mas eu sabia que a música tinha um conteúdo muito triste. Elas dançavam sempre numa roda e junto com a música cada uma contava a sua história. E choravam e se abraçavam e continuavam contando sua história e dançando. Para mim, cada dia era um ensinamento diferente”.

Viver, não apenas para a mulheres com a história brutal de Marie, é uma constante escolha entre o que recordar e o que esquecer. Ainda que para isso a maioria de nós tenha de travar um combate feroz com seus fantasmas antes de conseguir avançar, talvez não esquecer mas fazer que doa menos. Algumas pessoas fixam-se numa memória, condenando-se a um eterno presente, o que é um tipo de morte. Outros desperdiçam a vida ao transformá-la na fuga incessante de algo que só poderão esquecer se primeiro tiverem recordado e enfrentado como memória. Sobreviver significa remexer nos cacos para criar um novo sentido com a verdade possível.

O poeta brasileiro Manoel de Barros escreveu que ” só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro”. Pessoas como Débora e Marie conseguem trazer extrair pássaros de feridas. São estas as minhas heroínas.

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