A voz

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“A doçura da voz que rasga a alma e podia fazer pensar que.”. Leio sempre com encantamento esta frase de Marguerite Duras. Está no livro “Olhos Azuis, Cabelo Preto”, um retrato sublime de ausência, falta de comunicação, amor e desamor. O livro termina com o silêncio dos amantes e a doçura da voz dela não se faz ouvir porque as palavras são magras face à imensidade da dor. Quem não a conhece? A dor provocada pelo cerrar da cortina da história de duas pessoas que um dia acreditaram que o amor seria eterno. E o que dói mais, nas tardes de domingo em que cada nos distrai de nós, a separação em si ou a ausência da voz que nos preenchia?

Em “Nas tuas mãos”, outro livro belíssimo, Inês Pedrosa, escreve que “a separação pode ser o acto de absoluta e radical união, a ligação para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, pequena e mansa, quase vegetal”. Talvez e só para quem tenha a coragem de se separar antes de se instalarem as discussões e a mágoa, preservando a amizade e as memórias dos dias felizes. Poucos a terão. “Provavelmente só se separam os que levam a infecção do outro até os limites da autenticidade, os que têm a coragem de se olhar nos olhos e descobrir que o seu amor de ontem merece mais do que o conforto dos hábitos e o conformismos da complementaridade”. Fugir à convenção nunca foi fácil e a vida, a de sangue quente, não a da literatura, é tão mais complicada.

Se houvesse um manual de instruções para a separação o primeiro capítulo seria sobre despedida. Uma despedida com palavras, em que se ouvisse uma última vez a doçura da voz porque, e desta vez discordo da Inês Pedrosa, nem tudo “está escrito nos espaços brancos que ficam entre uma palavra e a outra”. Quando é preciso pôr um ponto final só a palavra o consegue fazer, não o silêncio.

PS 1 – Vários leitores/as escreveram-me em privado contando histórias e sentimentos seus. Agradeço a partilha e sinto-me honrada com a confiança depositada. Viver às vezes dói, mas vale tanto a pena fazê-lo de forma inteira.

PS 2- Voltarei aos textos políticos e em breve às viagens, fica a promessa para os que me perguntaram.

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