Cicatrizes

Ela está lá. Quase ninguém a vê, porém está. É bem real. Falo de cicatrizes, do corpo, mas sobretudo da alma, de marcas que nos deixam o coração apertado no corpo como umas calças dois números abaixo do tamanho certo. Nada é fácil neste tema de fronteira entre dois mundos, o interior e o de fora.

Escrevo na primeira pessoa. Por uma circunstância trágica, insuportável na altura, cedo me apercebi que o percurso de uma vida contém muito mais do que os conflitos visíveis. Perto do Natal de 1990 tive um acidente de automóvel na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Os destroços do carro foram para a sucata, as cicatrizes que me sulcaram o rosto atropelaram-me os dezanove anos. Seguiram-se meses de recuperação, cirurgia plástica – que deixou na testa uma cicatriz em ziguezague à Harry Potter – a revolta e a dificuldade em aceitar que o rosto que o espelho reflectia era o meu. Nunca o demonstrei. Tranquei as emoções num lugar entre o estômago e o coração. As pessoas partem-se. Eu estilhacei-me. Precisei de tempo para encontrar as duas pontas do nó e criar sentido onde não via nenhum. Intuitivamente eu sabia que a minha sanidade dependia de enfrentar a vida com as suas costuras tortas. Doeu muito, mas só têm uma vida aqueles que aceitam as suas cicatrizes como parte do vivido, da nossa abissal fragilidade.

Outra marca que me atravessa como um rio é a Guiné. Cheguei a Lisboa com a minha mãe, em 1974, após o 25 de Abril, tinha 3 anos de idade. O meu pai veio mais tarde. Dessa viagem (Bissau-Lisboa) ficou-me uma imagem, a mais antiga da minha infância, o Tejo visto da janela do avião. Costumo dizer que a Guiné me privou de pai, apesar da presença física, o meu pai ficou perdido no mato do meu pequeno país. E criou-me problemas de identidade, talvez isso explique porque decidi trocar Portugal pela Alemanha e pelas viagens. Nunca me senti totalmente de lá (Portugal), nem de lado nenhum. A minha pátria emocional, como costumo dizer, é a Alemanha. Talvez essa procura do “eu” explique também a opção pelo jornalismo.E a paixão por África. Só voltei à Guiné em 2009 (e posteriormente em 2010 e 2012 ) e fui revisitar as poucas fotografias que restaram do meu álbum de infância. Percebi finalmente porque é que o poilão do Jardim Botânico da Ajuda era a minha árvore favorita.

Só com a morte do meu pai este ano é que compreendi verdadeiramente um poema do Drummond de Andrade que me acompanha há anos. “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim”.

Quando somos abalroados por um drama pessoal ou perdemos alguém, os amigos, os bem-intencionados, dizem para nos consolar que tudo passa, que o tempo tudo cura. Não acredito que tudo passe, nem que o tempo cicatrize a dor. Penso que o consolo maior vem de saber que tudo muda. E nessa mudança há a possibilidade de colar os cacos e perceber que são os substantivos que importam.

As perguntas definidoras da vida para mim são como encontrar o amor, em sentido lato, ou por que vale a pena viver, mesmo com cicatrizes. Não tenho resposta patenteada, mas parte dela passa por procurar os momentos felizes dentro de mim, os que dão sentido à existência, nós permitem reinventar a nossa história e arrancar poesia à vida. Aprendi com as minhas cicatrizes que se pode baixar os olhos e identificar-se com a lama que se cola aos sapatos ou olhar para cima e pousar na capulana negra polvilhada de estrelas. Escolhi olhar para cima.

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4 thoughts on “Cicatrizes

  1. Hoje descobri porque visito o seu “cantinho”, porque entro no seu mundo sem pedir licença.
    Não tendo eu a delicadeza dos alemães, nem o seu dom da escrita, mas tendo apenas a sensibilidade para perceber que escreve com a alma e que é uma mulher guerreira, que não se esconde por trás de máscaras e é por isso que a visito, para poder beber das suas palavras.

    Minnie

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