Territórios de afecto

Os mapas vivem-se, como os livros, a oratória de Bach ou as telas. Materializam o sonho não de quem a criou, mas de quem as toma por suas. Herdei dos meus pais um mapa do belo, dos territórios do afecto e da pertença. Da terra da infância sustive dentro de mim o odor inconfundível do pão quente ao romper da manhã, o pudim de ovos caseiro no seu abraço de caramelo – o amor declina-se tantas vezes em comida – o reflexo da lua nos carris do eléctrico 18, a interpelação diária do Tejo, azul a dissolver-se nos olhos, as grandes casas imperiais à beira rio, a luz branca de Lisboa.

A vida passa num fósforo quando se vive noutra geografia. Em dezoito anos de ausência, de emigração, compreendi que a felicidade consiste também em travar o tempo e encerrar na concha da mão as memórias, as pessoas de com quem nos importamos, que nos preenchem de uma forma que por vezes as palavras não conseguem explicar. É preciso dizer-lhes os nomes, devagar, ao peso de cada sílaba, nem que seja no Natal.

Gosto desta época do ano. Do perfume do gengibre, do anis, da canela, do cravinho. De se sentir contra o céu da boca as rabanadas molhadas em calda de açúcar. Gosto de ver a casa cheia de brilhos e de me abrir os cartões manuscritos de quem não se rendeu ao email

No meu mapa privado de afectos refugio-me quando a luz se desvanece e entro no mundo de chumbo dos que nasceram do lado equivocado da vida. Entre eles e mim, entre eles e nós, existe apenas um acaso, separam-nos milímetros, mas são maiores do que quilómetros.

Com a família reunida à mesa em Bona, neste prelúdio de Natal, sublinho contrastes, como numa câmara escura. Penso em tantas vidas que com a minha se cruzaram, às vezes por breves instantes, no exercício de ver não apenas olhar, a essência da profissão de jornalista. Nunca conseguirei arrancar de dentro de mim uma mãe que ofereceu o filho bebé. Não queria dinheiro, apenas que o menino tivesse outra vida. Uma existência do lado certo da vida. O coração contraiu-se-me até ficar com a consistência da pedra.

Se me pedissem para traçar o epílogo das tantas viagens que fiz, a favor e contra o sentido de rotação da Terra, escreveria que ensinaram a aceitar a imperfeição e, olhando-a nos olhos, a perdoar, a rir sem o remorso da alegria e deixar-se encantar. E mais que tudo a não silenciar a voz em defesa dos direitos humanos mais elementares, aqueles que damos por adquiridos nas nossas vidas confortáveis: brincar, aprender a ler, ter que comer, a ter dignidade, a ser respeitado. Por eles troquei, sem hesitar, o jornalismo pela política de desenvolvimento e pelo desconforto do mundo. Não digo que é fácil, mas apesar todas as incomodidades não trocaria por nada o que faço.

Com a casa posta em silêncio, desligo as luzes da árvore de Natal e faço uma viagem sem distância, a favor e contra o sentido de rotação da terra. Nela rascunho um abraço apertado à família distante, aos amigos de infância polvilhados pelo mundo, mas cuja amizade não mudou de sítio – a tantos reencontrei-os nessa maravilha que é o Facebook – aos amigos da faculdade, das noites mal dormidas entre livros, conversas e promessas de futuro aos que se foram inscreveram na lista de afectos. A amizade é como um jogo de Lego, com múltiplas possibilidades, em permanente construção.

Nunca me habituei, nem nem me habituarei, à ideia da despedida e por isso basta-me como presente de Natal descobrir em mim os que os amo.”Não cortem o cordão que liga o corpo à criança do sonho”.

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