O pijama de flanela

Falar dela não é difícil, preciso de três verbos: acolher, sorrir, dar(-se). Falo da minha mãe que vou buscar ao aeroporto, mais frágil, envelhecida, numa cadeira de rodas, mas com a menina que é a espreitar-lhe dos olhos verdes. Ela sempre foi mapa, o meu mapa como no poema,”vou emigrar de ti, levo a tua foto e um livro de poemas para olhar e lembrar o mapa do meu país”.

Quando chega o momento dos filhos cuidarem dos pais descobre-se um território inóspito dentro de nós que conjuga o medo da perda e de pôr um ponto final na infância. É-se criança sempre quando os pais estão vivos, mesmo aos quarenta anos, e sabe tão bem.

Sei que a mãe vai chegar com uma bolsa pesada. Lá dentro sabores da terra e um pijama novo. A minha mãe sempre demonstrou afectos através da comida. Não me lembro de uma viagem, de uma ida ao cinema sem que retirasse da bolsa uns doces, umas bolachas, um pacote de sumo. Tenho um amigo que diz que o interior da mala de mão de uma mulher é um confessionário. Diz tudo sobre os seus tiques e manias. Fechada a mala é um biombo, aberta um fósforo frágil que ilumina a nudez do que somos, um microcosmos que amplia a vida. O manter esse velho hábito da minha mãe trazer comida dentro da mala é uma tentativa parar o tempo, uma centelha de imutável numa vida cujo controle lhe vai escapando.

Nos Natais da minha meninez houve uma constante, que na altura me irritava muito. Recebi ano após ano após ano, um pijama de flanela, geralmente azul e com cheiro a detergente de roupa, lavado das mãos que o cobiçaram antes, lavado do mundo.
Hoje, mesmo não vestindo pijamas, entendo a ternura maior daquele patinho-feio entre presentes. Nele se pousa o olhar protector de mãe e o que todas as mães desejam para os filhos: que estejam quentinhos na cama, a salvo de todos os perigos.

Tudo o que há para saber do amor é um cafuné nos cabelos antes de dormir, uma canção de embalar, um beijo na ponta do nariz, o cheiro de um bolo ainda quente. E um pijama de flanela.

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4 thoughts on “O pijama de flanela

  1. « É-se criança sempre quando os pais estão vivos. »
    Tão verdade, querida Helena.
    O nosso porto de abrigo.
    O aconchego.
    E um pijama de flanela.
    Obrigado.

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