A árvore de Natal

1.Começo pelo fim. O chocolate fumega na chávena. Escalda ao tocar das mãos. Enquanto espero que arrefeça, mexo lentamente a cobertura espessa do meu bolo preferido. Gosto tanto de ter na mesa de domingo um bolo. Degusto o tempo e o silêncio.

Abro o Die Zeit, que pode ser, pelo seu formato, difícil de ler, mas ainda é o melhor jornal alemão. Leio-lhe as colunas e percorro-lhe o índice. A vida seria mais fácil se tivesse um índice e uma errata. O jeito do mundo desassossega-me. Bebo um golo de cacau e passo do papel para o iPad.

Antes da electricidade e dos smartphones as pessoas sentavam-se à roda da fogueira e contavam histórias, hoje as pessoas sentavam-se à volta do Facebook e contam histórias. Short-stories que têm a vantagem da roupa não ficar a cheirar a fumo e de as podermos comentar. Graças ao ao Facebook cada de nós pode ser o narrador da sua história e o herói da sua vida. Haverá algo mais democrático? Ao mesmo tempo podemos identificar-nos emocionalmente com algumas narrativas de outros, fascinar-nos com experiências e mundos submersos, deslumbrar-nos com fotografias de viagem. O Facebook é o novo Tchékov (e há nele textos tão bons como os do russo).

2. Nos idosos do dia, e antes de eu estar para aqui a divagar, deixei o pai das minhas filhas no aeroporto com destino à Ásia. Despedi-o com a advertência de não se meter (de novo) em apuros, algo para o qual tem tanta atracção como os frigoríficos por ímans ou os gatos por caixas.

Regressei a casa e fui aos confins do jardim buscar o abeto (aquele de que vos falei ali em baixo) que ao final do dia seria a nossa árvore de Natal. Da cave trouxe os caixotes com as bolas de vidro e os enfeites.”Rudolph, the Red-Nosed Reindeer” ecoa pela sala em decibéis no limite da legalidade.

Habitualmente a tarefa de decorar a árvore é repartida com as miúdas. Com a mais velha no hospital a fazer voluntariado fiquei reduzida à mão de obra da mais nova.
Depois da Mami a muito custo ter conseguido colocar o abeto no suporte e verificar que a ponta toca no tecto (se estão a pensar fazer comentários sobre mulheres e geometria espacial mordam a língua, eu disse toca no tecto, mas sem se dobrar), a primeira tarefa é a de colocar as luzes. Minto, a primeira tarefa é a desemaranhar as luzes. De súbito a minha filha sente uma vontade imensa de tocar piano (só comparável a que tem quando lhe peço para arrumar o quarto), deixa-me sozinha com o labirinto de fios mas sem o novelo de Ariadne. Aproveitando a solidão solto algumas pragas de fazer estivadores ficar com as faces mais vermelhas que o nariz do Rudolph.

Fiat lux. Postas as luzes nos galhos é altura de colocar as bolas e demais ornamentos. Começo pelas mais pequeninas. As rotinas têm o seu quê de tranquilizador. Sinto-me mais serena do que depois de uma hora sentada na posição de lótus. O detalhe final ? Não é uma estrela, mas os anjos negros trazidos de Johannesburgo. Habemus árvore.

Com a passagem dos anos a tradição dos natais portugueses da minha infância foi sendo enriquecida com artefactos, cores e sabores de outros países, outros continentes. Os presépios na sala, que entregam sentido ao Natal, têm um menino-deus negro, um Jesus menino de Praga, outro que trouxe de Jerusalém, a que se junta o menino índio de Manaus. A banda sonora dos meus Natais é alemã, norte-americana, às vezes francesa e também africana (nota para a Matilde: o Anselmo Ralph não conta como música natalícia).

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