A vingança

Por detrás da Klecks podem ver um abeto qze já foi árvore de Natal (tenho o jardim cheio ohmmmmm)
Por detrás da Klecks podem ver um abeto qze já foi árvore de Natal (tenho o jardim cheio ohmmmmm)

Primeiro acto: “Let’s start at very beginning/A good place to start”. Comecemos então pelo princípio. Entre este apontamento e o “Conde de Monte Cristo” há semelhanças e não são pura coincidência. Em ambos os casos se trata de uma crónica de vingança. Bem o que vou contar não terá a intensidade emocional de Edmond Danté, nem eu estive nas masmorras Castelo d’If (embora já tenha estado em algumas masmorras) na companhia do distinto abade Faria. Porém, o sentimento que me move é igual: a sede de vingança.

Todos os Natais há em minha casa um tema de discussão familiar aguerrido: a árvore deve ser natural ou artificial. Faz uns anos que investi uma respeitável soma numa árvore de plástico. É bonita, prática (quando acabam as festas regressa à cave), não me enche o chão da sala de agulhas, não liberta resina e pela sua reutilização é ecológica (wishful thinking). Só que o meu vasto repertório argumentativo se derrete como chocolate contra o céu-da-boca ao primeiro “Oh Mami, vá lá”. Com uma pré e uma adolescente em casa a probabilidade de eu não ceder é a mesma de me sair o Euromilhões. Portanto, a Mami vai. Vai para um centro de jardinagem, uma espécie de Ikea das plantas, mas para maior, escolher “a” árvore.

Na Alemanha vendem-se pelo menos 10 espécies diferentes de “árvores de Natal”, perdoem-me a fraca botânica, e na internet encontram-se uma profusão de páginas que, com milimétrica perversidade, explicam qual a árvore que melhor se adapta às suas necessidades natalícias. Depois de uma caça ao tesouro, perdão à árvore (entre centenas de árvores de todos os tamanhos) detenho-me, enregelada, em frente à minha Abies nordmanniana. Tem uma folhagem imponente. Tiro-lhe as medidas: o diâmetro é adequado e tem pouco mais que dois metros de altura. Pico as mãos nas agulhas enquanto espero que o empregado lhe venha colocar a rede para que a possa transportar. Por falar em transporte, onde está o meu carrinho? Upsss. Resta arrastar a árvore até à caixa.  Agora só falta colocá-la no porta-bagagens. Aos quarenta e três anos eu já devia saber que o argumento principal a favor do abeto de plástico é o momento de colocar a árvore dentro do carro. Ohmmmmm. Com uma árvore colada ao vidro da frente, estilo metro de São Paulo em hora de ponta, rogo pragas a todos os autores de canções, poemas e histórias  natalícios que exaltam a beleza dos abetos, nem tu escapas Hans Christian Andersen, nem tu. Conde de Monte Cristo como te endendo.

Segundo acto: reconciliar-me-ei, como sempre, com  a árvore quando a tiver montada na sala (surgiram-me as primeiras dúvidas quanto à sua altura) cheia de brilhos, enquanto lá fora a neve cobre tudo de açúcar.  Em Bona neva quase sempre pelo Natal. Nesses dias minha rua enche-se de bonecos de neve e de crianças com trenós. A miúda que habita em mim não resiste à uma batalha de bolas de neve até as mãos ficarem adormecidas de frio (as luvas não dão muito jeito para fazer bolas) e o nariz bem vermelho. Depois das batalhas sabe-me entrar na casa quentinha, aconchegar-me no sofá com a cadela aos pés, a ler, a ver um filme ( Musicanocoraçãodependente me acuso) e nos intervalos pousar olhos no meu abeto (sou péssima no que toca a vinganças).

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