Tugce, mais do que um gesto

Uma mulher turca de beleza suave chamada Tugce Albayrak jantava no McDonalds quando ouviu gritos de socorro. Como descrever o que ela, estudante universitária de alemão e ética, viu? Como descrever violência destruidora que não deixa hematomas visíveis? Tugce escutou o desespero de duas adolescentes assediadas por um grupo de homens na casa de banho do restaurante e interveio. A força dessa intervenção vai além do próprio gesto, é a própria compaixão resgatada.

Olhar e querer ver é uma opção, a mais difícil das escolhas. E é neste percurso entre o olhar e o ver que entramos nós, bem menos inocentes do que pensamos. Porque é que Tugce se tornou num símbolo e levou milhares de pessoas a expressar a sua perturbação ? Porque o que ela escolheu ver arranca-nos do conforto de espectadores, lembra-nos o que não quisemos ou fomos capazes de avistar: a violência que insidiosamente consideramos normal.

Não há nada de normal aqui. A regra para quem tem 22 anos é viver e não morrer. Não há nada de normal em as mulheres não serem seres de direitos plenos e não de direitos descartáveis. Seria bem mais fácil encontrar apenas um vilão para culpar: o homem que a agrediu e em consequência dessa agressão lhe provocou a morte.

A morte de Tugce não chocou a Alemanha pela novidade, a estatística é clara: mais de quarenta por cento das mulheres na Alemanha foram vítimas de violência física ou sexual. Quarenta por cento sublinho. Emocionou o país por ser uma mulher a única, num restaurante cheio de homens, a ter Zivilcourage. Comoveu por ser uma estrangeira e muçulmana. Sensibilizou por ser uma jovem que doou o coração, os pulmões e rins para outros pudessem sobreviver à sua morte.

Tamanha coragem envergonha. Expressão disso foi a proposta indecente de um grande jornal alemão: que se fizesse um silêncio de letras sobre caso. Discordo de forma radical. Só a pressão sistemática e diária permitirá acabar com a violência sobre as mulheres. A singular homenagem que podemos fazer a Tugce é denunciar, inscrever-nos , e não silenciar e iludir-nos com lamentos de ocasião.

“O primeiro dia sem Tugce é como um dia onde o sol teima em não nascer”. Palavras de pai. Não há hipérboles na gramática dos pais que perderam uma filha.

Germany
Foto dpa
Tugce
Foto dpa

 

 

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