O Peter Pan que mora nós.

Tive um sonho extraordinário, o Sporting vencia o campeonato, sonho interrompido pelo toque do despertador. Quando o tirano de mesa de cabeceira me devolve à realidade  imagino como seria ganhar no Euromilhões (sozinha como é óbvio). Mastigo com pouca vontade a torrada enquanto releio “Cleopatra’s Wedding Present” de Robert Tewdwr Moss. A páginas tantas, a meio de um parágrafo, vejo-me a viajar pela Síria no início da década de noventa. Das muitas, muitas horas que passo a trabalhar e conduzir (almighty iPhone, glorious Facebook) não sei bem contabilizar o tempo despendido em devaneios. Quando quero relaxar ouço La forza del destino ou revejo pela milionésima vez Pretty Woman ( ou outro filme romântico-ridículo do género) e claro quero ser a princesa do Richard Giro. Suspiro. Com maiores ou menores variações o meu dia não será diferente dos vossos no que toca à mescla entre realidade e ficção. Quem nunca deu por si a fantasiar reencontrar um velho amor? Se viu ao volante de carro que custa a soma dos seus salários anuais? Perdeu sem esforço aqueles cinco quilos que impedem as suas calças preferidas de fechar? Mergulhou entre recifes de coral ou imaginou o Benfica a vencer a Liga dos Campeões ( para esta última é preciso muita imaginação admito)? Engana-se quem pensa que fantasiar é algo incompatível com a vida adulta ou com o ser racional. Pelo contrário. As nossas fantasias são decisivas para nós tornarmos no que somos. Podemos agradecer aos contos de fadas muitas das nossas normas éticas, a distinção entre o bem e mal, a valorização da coragem, a projecção dos nossos medos e a possibilidade um final feliz (nada é mais sedutor do que a possibilidade). Em “A Psicanálise na Terra do Nunca” os autores Diana e Mario Corso, escrevem, “quando reflecte sobre si, o homem comum vê-se como alguém racional, lúcido, com os pés no chão, mas que às vezes é tomado pela fantasia. Os psicanalistas acreditam no contrário: o homem sonha a maior parte do tempo, e em certos momentos acorda a contragosto (…) na prática somos casados com a realidade mas só pensamos na nossa amante: a fantasia”. Num longo artigo que li há alguns anos sobre a fantasia, Eliane Brum afirmava que “na maioria nós habita um menino perdido na Terra do Nunca”. Procurando crescer, mas não sabendo muito bem como. Passando a maior parte do tempo a sonhar e pensando que está acordado. Sem saber que a maior fábula de todas e a de acreditar que se é perfeitamente racional e se tem os dois pés assentes na terra.

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