Notas soltas sobre o Advento

A minha época preferida no ano é o tempo do Advento. Os dias, que se querem serenos, de preparação para o Nascimento do menino-Deus, que nos ajuda “a tecer a vida/como quem entretece uma história de amor”.

Sábado acordei tarde, se pode chamar tarde a um despertar por volta das nove horas. Tudo estava organizado na cozinha quando desci do quarto. A Matilde tinha espalhado os moldes das bolachas sobre a mesa. Estrelas, camelos, árvores de Natal, flocos de neve de metal contrastando com o azul do batik indonésio que cobria a mesa. Recebeu-me de avental colocado, sorriso amplo e chapéu natalício na cabeça. “Sou o teu duende”. A festa começou entre o odor a baunilha, o gosto a noz-moscada e canela. Habitualmente passo aspoucas horas que me sobram na soma dos dias num alegre bonding com a descendência e os/as “duendes” amigas da descendência (que esta casa tem mais circulação que muitos aeroportos).

Viram o filme “When Harry Met Sally”? Nele há uma frase delico-doce, pirosa mesmo para alguns, mas nem por isso menos acertada: “os nossos cérebros são bons a guardar factos e datas que podem ser esquecidos quando já não são precisos. Mas nada do que é bem abrigado nos nossos corações se perderá alguma vez”. Nem que sejam umas horas de ternura a fazer Plätzchen – e a deixar a cozinha da Mami num estado de catástrofe que faria a protecção civil emitir um alerta máximo – ou a passear pelo Mercado de Natal de Bona. Elas, as teen a vários passos distância, “não queremos ser vistas com adultos”, a Mami a fazer um esforço (grande, muito grande) para encolher as asas de A380. Na Amazónia ensinaram-me um provérbio que uso tantas vezes: em terra estranha boi é vaca. E adolescência é uma terra muito estranha.

Adio a árvore por dia. Faltaram-me as horas para descer à cave abrir caixotes, retirar com cuidado as bolas de vidro coloridas. Para desnudar do papel de seda que os protege os muitos presépios, tesouros de viagem. Se fizesse um epílogo das viagens que fiz diria que me ensinaram a enfrentar a imperfeição e, olhando-a nos olhos, a perdoar. Ensinaram-me a olhar a vida com encantamento. E, sobretudo, a nunca baixar os braços em defesa dos mais elementares direitos humanos: brincar, aprender a ler, ter que comer, a ter dignidade. Gostava que essa fosse a herança das minhas filhas: saber perdoar, aceitar a imperfeição, lutar contra a injustiça, perceber que nem todos nasceram como elas do lado certo da geografia.

Com a casa já em silêncio decoro a coroa do Advento, coloco-lhe as suas quatro velas (domingo a primeira será acesa). Aproveito umas maçãs para fazer uma tarte Tatin e penso no meu pai que tanto gostava de maçãs reinetas. A vida passa quase, quase, sem darmos por ela (as minhas filhas estão cada vez mais crescidas e independentes).
Invoco a graça de travar o tempo, de encerrar na concha da mão as memórias, as pessoas de quem gosto. As que fazem ou fizeram parte da minha vida. Junto-as todas numa oração, num agradecimento.”O Natal não é ornamento: é fermento/Dentro de nós recria, amplia”.

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4 thoughts on “Notas soltas sobre o Advento

  1. Que saudades me fez Helena! Aqui neste desterro ate me ia esquecendo do advento, tambem para mim uma das epocas preferidas. Como gosto do Natal na Alemanha das Plaetzchen ao Gluehwein…. Todos os anos temos o nosso Advenstkranz e demais tradicoes alemas que vamos acumulando com as familiares portuguesas. Ha epocas em que a tradicao nunca e demais, nao e? Um primeiro advento feliz para todos

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