Advertências sobre (os escrúpulos da) a fantasia*

Quem nunca sentiu a necessidade de dar sentido à própria vida, mesmo que temporariamente, ou revivê-la?

Sou depositária de uma história que me pediram para escrever. Sem julgamentos morais. Os envolvidos traziam consigo a urgência de narrar, de a projectar para além do tempo, do espaço, da precariedade do encontro, procurando habitar o presente absoluto.

Eram um pouco mais do que conhecidos e um pouco menos que amigos. Trocavam as cortesias próprias das épocas festivas e um ou outro telefonema. O coração disparado, as pernas a tremer e as borboletas no estômago chegaram através da internet. E nenhum deles é adolescente. São pessoas viajadas, com mundo e maduras. Num momento de solidão acompanhada, um a divorciar-se o outro num casamento morno, tornaram-se íntimos. Primeiro foram só palavras, jogos de sedução com sujeito, verbo e predicado no sítio certo. Precisaram de alguns encontros, de roçar de lábios e corpos até se entregarem. Uma única vez. Nunca mais se viram desde então. Guardam a memória da pele e a aventura sem culpa, sem remorso, sem vergonha. Sem querer “mexicanizar”, não podem passar um sem o outro mas não querem ficar juntos.

Ambos me perguntaram se é possível amar alguém e sucumbir a uma aventura, ou amar duas pessoas ao mesmo tempo? Apanharam-me desprevenida confesso. No início de todas as relações os amantes satisfazem-se unicamente um com outro, mas com a erosão do tempo a sedução, a fantasia começa a escassear, abrindo a possibilidade de novas experiências e nada disso tem a ver com o amor que se sente pelo companheiro ou companheira. Não estou com isto a defender a traição, tema complexo uma vez que a vida não é um enredo de samba nem um guião de cinema, nem tenho o direito de a criticar. Aos amantes que me fizeram depositária da sua história perguntei se já lhes aconteceu entrarem num local e admirarem as flores artificiais. Porquê? Algumas são sublimes. O problema é que enganam apenas os olhos, não alcançam os outros sentidos. As flores artificiais são como a precariedade de alguns encontros.

Se o encontro for mais que isso, mais do que aspiração de viver no presente absoluto sem o estorvo dos outros, então há que ter a coragem de o viver na sua totalidade, com todas as suas modulações, mesmo que isso doa. A vida pode ser inverosímil. O amor não.

*Título pedido emprestado a Luigi Pirandello

PS- Crónica publicada no P3

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