Atropelada

Desatenta ou concentrada, Cochabamba sempre me atropela. Não falo do trânsito caótico, exceptuando algumas tangentes feitas pelas geringonças que aqui circulam, além dos impropérios dirigidos à minha doce mãe, tenho conseguido manter-me viva. Falo de coisas ligadas aos sentimentos. A questão aliás nem sequer é geográfica e se me refiro a Cochabamba, é porque aqui passei dias intensos, poderia estar a falar de Lisboa ou de um daquelas pontinhos no Atlas que só a lupa permite descobrir. Eu queria mesmo era falar de ninguém, de ninguéns. Estava eu sentada no café Paris, o meu lugar afecto nesta cidade, debruçada sobre um jornal, quando o olhar se distraiu e atravessou a janela. Do outro lado da rua, sentada no chão, uma mulher com um bebé de colo e um miúdo de poucos anos, tecia pulseiras coloridas. Terminei o cappuccino e atravessei a rua. “Quanto custam as pulseiras?”. “Cinco bolivianos”. Comprei-lhe várias e ela agradeceu-me com sorriso onde faltavam dentes. “Como se chama?”. “Eu?”, disse sem mágoa,”ah, eu não sou ninguém señora”.

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