O dia em que conheci Evo Morales

1. Isto vai meter um Dodge pré-histórico, um museu arqueológico e o presidente da Bolívia, tudo por acaso, mas há que contar como.

As ruas em redor da formosa Plaza 14 de Setiembre cheiram ao ananás que as cholitas, indígenas-cartão-postal, vendem cortado em fatias. Procuro o alívio da sombra. Inti, o deus sol inca, despertou inclemente. O plano era simples: ir até à 14 de Setiembre, que parece conter toda a história de Cochabamba e recolher-me umas horas no Café Paris, onde se come o melhor crepe de Dulce de Leche da cidade e o Wifi não desilude.

Acabo de chegar ao edifício amarelo torrado da Alcaidia. Encostada à parede, como jaguar preparado para o salto, a polícia de choque. No interior da Alcaidia os representantes dos lecheros reúnem-se com o governo regional para discutir o do preço do litro de leite. Quinta-feira os lecheros bloquearam a Blanco Gallindo, a principal via rápida de Cochabamba. Houve gás lacrimogéneo, pneus incendiados e feridos. Um clássico boliviano.

“Élena, Élena”. Viro-me e vejo a R., uma jornalista conhecida. Antes de conseguir soletrar charango já estou dentro da Alcaidia. Pior, a ser entrevistada para a televisão sobre o combate à violência contra a mulher na Bolívia. País onde a cada três dias uma mulher é assassinada pelo seu parceiro, uma em cada três mulheres foi violada antes dos 18 anos e nove em cada dez mulheres sofreu algum tipo de violência física ou psicológica. Assustador é adjectivo que peca por defeito.

“Élena, o Evo vai inaugurar uma escola daqui a uma hora. Vens?”.

2. Bairro 1 de Maio. Favela boliviana. O ar cheira a esgoto. De um lado da estrada de terra pela qual passará em breves instantes a comitiva presidencial, vacas amarradas aos casebres, do outro lado um burro pachorrento mordisca um tufo de ervas.
Meninos de uniforme escolar amarram numa baliza balões azuis e brancos, as cores do MAS, partido de Evo Morales. Abrem sorrisos doces como mangas. “Gosto tanto da minha escola nova”.
A Escuela Pátria Nueva é um golpe de cor na desolação. Salas de aula bem equipadas, campo de desporto, laboratórios. No pátio a multidão acotovela-se, indiferente ao calor atordoador. Evo-ora-pro-nobis.
É agora. Chegou o camarada presidente. A multidão, a maioria tem rostos indígenas, está suspensa dos seus movimentos. Ra-ta-tatá entoa a banda da polícia militar. O presidente pára e estende a mão a quem lha solicita, sorriso escancarado. Pára para as fotografias da imprensa, sorriso escancarado, pousa para as fotografias da gringa, sorriso escancarado. Evo é praticamente levado pela multidão até à escada do palco. Seguem-se mãos no peito para cantar o hino, discursos, presentes, choradeira. Mãos no ar para dizer adeus. Evo-ora-pro-nobis. Sinto-me a chegar de outro planeta.

3. O carro da Alcaidia que trouxe ao 1 de Maio já se foi embora. Sem mim. Eis-me portanto em frente a um bar de estrada à espera de transporte que me leve ao centro de Cochabamba. Aqui não há horário, nem paragem pré-definida. Ohmmmm.
Dois bolivianos é o que custa a passagem no “chapa” boliviano, um Dodge pré-inca, de bancos vermelhos e desconfortáveis, onde encarno o próprio Ferreira de Castro à procura de espaço. Como não há senão sem bela, a pintura do Dodge compensou toda a incomodidade.

4. Bem tinha dito o Lonely Planet que o Museu Arqueológico de Cochabamba vale muito a pena. Múmias da civilização inca, cerâmica pré-inca e inca, artefactos com mais de dez mil anos. Se houvesse um índice que medisse a felicidade presente, o meu bateria recordes.
Não cheguei a despedir-me do Café Paris, mas terminei a noite num concerto da Gian-Carla Tisera, uma soprana boliviana que mistura clássico, folclore e jazz com resultados surpreendentes (estejam atentos aos próximos Grammys).
Quis o último acaso do dia que ao meu lado no concerto se sentasse um casal boliviano com uma filha a estudar em Berlim e cujas últimas férias foram passadas em Lisboa. Sem me permitir argumentar fizeram questão de me trazer até ao Hotel. De Porsche Cayenne.
Podia habituar-me a dias como este.

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PS- as fotografias usadas neste e no Post anterior ( como a maioria das fotografias no blog) são de minha autoria e protegidas por copyright. Podem ser usadas desde que citando a autoria. Obrigada.

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