Não o tempo não cura tudo

Tenho entre os dedos a tua fotografia. Sorriso só delineado, sempre temeste não estar à altura dos seus próprios sonhos, óculos de piloto, os de toda a vida, única concessão que farias à aventura, cabelo farto, genes que se tornariam na minha característica física mais distintiva. Nessa constelação de desencontros que é a vida a única coisa em comum que tivemos além do cabelo, a única paixão foi a que me privou de ti: a Guiné.

A mãe escolheu esta fotografia, que reconstitui texturas e em que estás tão bonito, para o anúncio da morte.

Acaricio a imagem com a ponta dos dedos. A oração não me acalma a tua ausência. Desvio o olhar para o vazio, como se te escondesse de novo na gaveta da cómoda da sala, fingindo não sentir a ferida, como fiz nos primeiros meses.

Partiste há nove meses e eu busco o silêncio, insuportavelmente sozinha, numa cadeira desconfortável de aeroporto. Faço dela a minha capela.

A dor nem sempre é alcançável pelas palavras. Se pudesses renascer das minhas lágrimas porque palavras encontro uma apenas pai, saudade.

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4 thoughts on “Não o tempo não cura tudo

  1. Às vezes cura. Quando falamos do assunto e já não choramos. Curou. Outras vezes não. Quando falamos do assunto e choramos. Não curou. Mas quase sempre cura, se nesse tempo, tiveres um par de ouvidos que te escutem ou se aprenderes a viver com esse buraco. Quer dizer, se esse buraco for teu, se o aceitares como teu, como fazendo parte de ti. Quer dizer, se quando sentires que escorregas para esse buraco fazeres uma de duas coisas: vou estar no buraco, já passa, ou não quero ir, contorno esse buraco e passou. Em qualquer dos casos, curou.

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      1. está lá e lá irá ficar. Saber que é ali já é um ENORME passo. Vais no bom caminho. Não sei que dor é, nem interessa. O que importa é que esse caminho é duro e que a tempo irás ser capaz de falr dessa dor e se não, ao menos, saberás onde está, e poderás chorá-la. Boa sorte.

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  2. Sem mais. E passa a fazer parte de nós para a vida! Eu guardo o cheiro, que tanta falta me faz, inesquecível! E a dor é também ternura e acompanha-nos. Nada mais… nem interessa! nem há palavras.

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