As listas

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O ponto de partida para esta nota desenha-se com a simplicidade de um lápis: as listas. Quem de nós não tem o hábito de fazer listas? Escritas em folhas brancas presas na porta do frigorífico com ímans, em post-its ou no telemóvel. Da mais mais corrente, a do supermercado, à dos livros de eleição, passando pelos carimbos no passaporte de países que já visitámos ou queremos percorrer. Um amigo, adepto da lógica do pneu sobressalente, tem mesmo no iPhone uma lista das mulheres com quem gostaria de sair ou conhecer mais de perto caso a sua actual relação fracasse.

Esta mania das listas explica o sucesso de livros que catalogam: os 100 locais a visitar, 50 coisas que um homem até aos 50 anos deve fazer, 50 livros que toda a gente deve ler. Não sendo obras que nos viram do avesso e alteram a existência, são comparáveis ao desejo de fugir de casa que todas as crianças experimentam na infância.

Qual de nós não tem uma história de fuga, realizada ou apenas planeada, para contar? Quem não se lembra daquele momento em que queria bater com força a porta atrás de si e num pacto de Fausto, manter o pijama quentinho vestido e os livros proibidos pela vigilância maternal escondidos debaixo do colchão? Na infância o mundo lá fora era fascinante, magnético, e claro assustador. Havia que encontrar uma escada para o imaginário, uma válvula de escape, uma consolação. A minha sempre foi a leitura. “Overdose de realidade é a ruína do ser humano” . Tenho esta frase de Martha Medeiros colada num post-it no meu meu monitor.

Não sei se se lembram da história da “bucket list” de uma jovem australiana que morreu de acidente aos 19 anos? Essa lista continha mais de uma dezena de desejos desde “aprender espanhol”, a “ter um blind date” e “assistir a um espectáculo no Moulin Rouge”. Inúmeros desconhecidos, que tiveram acesso à lista através da internet, numa tocante onda de solidariedade acabariam por cumprir os sonhos da adolescente. As listas transformam-nos numa Ema Bovary, à espera de uma outra vida.

Quando escrevo listas ou actualizo as existentes – conhecer a Austrália e viajar de comboio pela Avenida de Volcanes são reincidentes – rio-me sozinha com Veríssimo: “Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic”.

( e agora vou desligar o iPad antes que me expulsem do avião)

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