E ainda querem o regresso da ditadura militar?

Não foi uma fatalidade que encarcerou aquelas crianças. Foi o terem nascido do lado errado da ditadura, embora nenhuma ditadura tenha um lado certo.

Zuleide Aparecida do Nascimento tinha 4 anos e os irmãos 2, 6 e 9 anos quando foram “capturados” no Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo. A família lutava na clandestinidade contra a ditadura militar brasileira. Os irmãos foram presos, fotografados, classificadas como “terroristas”, “subversivos”, pelo temido Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e por fim expulsas do Brasil a 15 de Junho de 1970. As assinaturas que encerraram o capítulo da infância foram as do então presidente Emílio Médici e pelo ministro da Justiça Alfredo Buzaid. Ao lado de 40 presos políticos, os meninos embarcaram rumo à Argélia e depois a Cuba, numa negociação da esquerda com o governo militar que envolveu o sequestro do então embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. O regresso de Zuleide ao Brasil só se tornaria possível 16 anos mais tarde, depois de ter conhecido o pior do homem.

Paulo Fontelles Filho nasceu na prisão. A mãe, Hecilda Fonteles Veiga, era estudante de Ciências Sociais quando foi presa, em 1971, em Brasília, estava grávida de cinco meses. “Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer”’. Hecilda foi colocada na chamada “cadeira do dragão”, espancada e torturada. “Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia”. O parto de Paulo foi feito por cesariana sem anestesia, “para apressar as coisas”. Depois do parto, os militares demoraram a entregar o bebé à família de Hecilda porque não encontravam algemas que coubessem nos pulsos do recém-nascido. “Eles deviam me achar bastante perigoso!”, ironizou Fonteles no seu depoimento.
“Tratavam-nos como se o comunismo fosse uma doença hereditária, sem cura. Como se fosse uma praga que pudesse se espalhar pela sociedade. Éramos um risco”, afirma Zuleide.

A história de Zuleide, de Paulo e Hecilda são alguns dos 44 testemunhos de filhos de presos políticos, perseguidos, assassinados e desaparecidos durante a ditadura militar, reunidos no livro “Infância Roubada”, publicado na semana passada pela Comissão da Verdade.

São histórias de tortura, humilhação, de dor, de desamparo, de exílio, vazio, solidão e medo. De meninos e meninas que assistiram à tortura das mães, ou que foram torturados.
Há casos de sequestro, de adopção forçada, de fetos torturados no ventre das mães.

O livro da Comissão da Verdade é lançado num momento bastante oportuno da história brasileira, um momento em que alguns brasileiros desfilam pedindo o regresso da ditadura militar por meio de uma intervenção militar.
É a vida é pródiga em paradoxos, mas que um país que viu raptarem o futuro a tantas crianças, que um país que vive em democracia, peça o regresso da ditadura, não é paradoxal é torpe.

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2 thoughts on “E ainda querem o regresso da ditadura militar?

  1. Mas isto é mesmo verdade? Que mentes imaginam e praticam estas selvajarias? E provavelmente têm família e amigos que as consideram simpáticas e educadas!

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