Adeus Lenine

Alguns filmes fazem História, outros tentam reescreve-la, outros ainda são fontes da História. “Good Bye Lenin”, vencedor do “Anjo Azul” para o melhor filme europeu no Festival de Cinema de Berlim, pertence ao grupo dos últimos.  
A obra do realizador Wolfgang Becker que levou aos cinemas milhões de espectadores é uma lição de história contemporânea alemã. Não só para a geração do actor principal, Daniel Bruehl ( “Alex”), que tinha apenas 11 anos em 1989 quando o Muro caiu, mas também para a geração anterior apanhada no turbilhão da revolução democrática, da união monetária intra-alemã e por fim da reunificação do país ao fim de quatro décadas de divórcio impostas pela ordem de Ialta.  
O enredo desta tragicomédia, delicada e com uma ironia comovente na sua linguagem visual e formal, começa com um “flashback” ao Verão de 1978, com duas partidas simultâneas e antagónicas. A bordo da cápsula soviética Sojus 31 parte Sigmund Jähn, o primeiro astronauta alemão a viajar no espaço e o pai de “Alex” foge da Berlim Oriental para a RFA. Um é um herói, o outro um traidor. A partir desse momento a mãe de “Alex” transforma-se numa empenhada activista da utopia socialista. A vida da família prossegue na harmonia possível da ditadura confortável de Honecker até ao ano de 1989. No Outono do ano do rasgar da Cortina de Ferro “Alex” participa numa manifestação a favor da liberdade, manifestação reprimida brutalmente. Ao ver o filho ser batido pela polícia, no dia do 40 aniversário da fundação da RDA, a mãe de “Alex” tem um ataque cardíaco entrando posteriormente em coma. Quando desperta, oito meses mais tarde, acorda num novo país. Para poupar o coração débil da mãe – que choque maior do que o triunfo do capitalismo no “ paraíso dos trabalhadores”? – “Alex” reconstrói em 79 metros quadrados a ortodoxa Alemanha Democrática desaparecida, transformando o apartamento numa ilha do passado, numa espécie de museu do socialismo. Com a ajuda de um colega de trabalho chega mesmo a produzir emissões da “ Aktuelle Kamera”, o noticiário oficial da RDA. A manipulação criada por “Alex” vai ao ponto de inverter a História: as imagens da queda do Muro não são as de “Ossis” que festejam a entrada em Berlim Ocidental, mas as de “Wessis”  refugiados que conseguiram escapar do inferno capitalista de Helmut Kohl para o éden comunista de Erich Honecker. Todavia, “Alex” depressa se apercebe que manter a ilusão é mais difícil do que parecia. Como obter pepinos em conserva da Spreewald, ervilhas da marca Tempo e café Rondo (produtos emblemáticos da RDA)?  A ilusão desfaz-se quando a mãe de “Alex” olha pela janela e vê a cabeça de um Lenine segmentado flutuando dependurada num helicóptero.
O sucesso de bilheteira deste filme não se explica apenas por um puro fenómeno de “Ostalgia” ( nostalgia do Leste)- que foi responsável por outro êxito cinematográfico a “ Sonnenallee” – , o filme de Becker fascina os alemães das “duas” Alemanhas, talvez pelo facto de após a “Wende”- a “viragem”-   o apagar dos indícios físicos  da RDA ter sido tão consequente que a ficção tenha de ajudar à reconstrução dos rituais e iconografia que tornaram possível a existência de um Estado aos olhos dos seus cidadãos.
Para os nostálgicos resta um consolo: pepinos da “Spreewald” e vinho espumoso “Rotkäppchen” encontram-se hoje à venda por toda a Alemanha, até na Baviera.

PS- Texto adaptado de uma peça que escrevi para o jornal Público em 2006.

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