Eis a coutada do macho ibérico no seu esplendor

1. Gosto de desafios. Por isso falemos da hamletiana questão: ter ou não ter tempo. E não é uma questão de ter ou não ter mais rugas ou ver a gravidade surtir o seu efeito, mas o desejo (impossível ?) de construir a vida por um processo de redução.

Num jornal português, uma personalidade conhecida questionava se as mulheres seriam mais felizes agora, com a liberdade e independência que gozam e que em contrapartida lhes rouba o “tempo no lar”.
Num pungido lamento o articulista nota “que as fadas não voltarão aos lares”. Neste ponto da leitura já minha urticária estava ao rubro e vali-me da meditação. Ohmmmm.
Ora vamos lá. O Portugal que o senhor refere, era um país em que as mulheres eram sobretudo mães e donas de casa, era um país cinzento, onde os casamentos se mantinham por fachada, mesmo que o “chefe de família” tivesse abertamente uma amante (ou várias), em que as mulheres não podiam viajar sem autorização do legítimo esposo, nem ter conta bancária, em que havia filhos bastardos, a bofetada era prova de amor e a infidelidade feminina ilibava o assassinato. A coutada do macho ibérico no seu esplendor.
A pergunta que faço é simples: qual de nós (e não me refiro apenas a mulheres) gostaria de viver num país assim?

2. É bom não perder a noção do essencial. E o essencial é que a liberdade da mulher, a liberdade conquistada pelas mulheres portuguesas – que inclui o direito a “ser infeliz” – não pode ser condicionada por um conceito de moral/família ditado por concepções religiosas e políticas e estabelecido por uma vanguarda misógina que pretende impor essa “moral” – a mulher dócil, a mulher fada do lar e pilar da família – em direito e impor a cada mulher o comportamento privado e público que os “ayatollahs” da “felicidade feminina” determinaram.

Se a mulher quiser ser “fada do lar”, óptimo, é a sua escolha. Se não quiser também é opção sua.

3. Queridos homens (ou alguns homens) se vos incomoda tanto a “falta de tempo para o lar” têm boa solução: saiam mais cedo do emprego, participem nas tarefas domésticas (não conta só levar o lixo à rua), passem mais tempo com os vossos filhos, vão buscá-los à escola, apreciem as conquistas das vossas companheiras. Ganham vocês e elas.

4. Falo do meu exemplo pessoal. Sou mãe de duas filhas maravilhosas, excelentes alunas, que falam várias línguas e tocam mais do que um instrumento musical. Mas sou muito mais que isso: sou uma profissional que adora o seu trabalho e sabe que é competente. São duas dimensões complementares, não consigo viver sem nenhuma delas. Não é fácil, exige um enorme esforço de organização e planeamento (habitualmente estou eu a aterrar e o pai das minhas filhas a partir ou vice-versa), mas o certo é que somos descaradamente felizes.

5. De cada vez que me dedico a essa arreliadora tarefa que é celebrar o dia da Mulher tropeço numa singularidade. Um grande número de mulheres têm todas as habilitações necessárias, excepto uma: não é um homem. Ohmmmm.

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