Privilégio, sortilégio

1. Da estação central de Berlim ao Wannsee, o lago nas margens do qual se escreveu o prelúdio da Shoah, são apenas apenas alguns minutos. Delicio-me com o sol da manhã que irrompe pela janela do comboio. Transporta-me à Primavera, se substituir as flores por folhas douradas, laranja, cor de ameixa.
Nesses poucos minutos folheei impaciente o jornal e detive-me sobre uma reportagem. Um olhar daqueles que torna o ordinário em extraordinário.
A reportagem do Berliner Zeitung é sobre os preparativos da cidade para o frio, que se anuncia para breve, mesmo que o início muito suave de Novembro o pareça desdizer.
Preparar-se para o frio significa fazer contas aos alimentos necessários para as refeições quentes a distribuir pelos sem abrigo da capital, aqueles porque passamos com a nossa cabeça no alto e a deles no rés-do-chão, sem nivelarmos olhares,e planear as camas necessárias. Cada vez mais. Aos velhos pedintes berlinenses, somam-se toxicodependentes, famílias inteiras de refugiados, ilegais e os novos pobres vindos de países da União Europeia em busca de emprego. Em 2012 eram mais de onze mil os sem-abrigo na capital alemã. Lembro-me de uma frase dessa observadora sensível da vida que é a Eliane Brum, “em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado”. E eu vim a Berlim para falar de Moçambique. A vida é feita de círculos concêntricos.

2. Depois de passar todo o dia num seminário sobre liberdade de imprensa e os desafios dos media moçambicanos, poupo-vos os detalhes, tive um jantar romântico com o iPhone, que me foi pondo a par das novidades, me fez rir no Facebook e acelerar o pulso ao ver o número de emails por responder. Um homem perfeito.
Prestes a sair do restaurante e desejosa de cair na cama para um sono retemperador eis que do nada surge um casal de amigos. Entre abraços e beijinhos, o inevitável:”vamos tomar um copo, não aceitamos um não”. Ai-a-minha-vida. Pelas onze horas eles compadeceram-se do meu cansaço, não sem antes nos termos desfeito em gargalhadas a contar anedotas sobre o Putin. “Porque é que o Putin tem tantos guarda-costas? Simples, porque os seguranças têm medo de ficar sozinhos com ele”. Ou a minha preferida: “Um democrata, um comunista e Putin participam num comício eleitoral. O democrata diz: “Prometo a todos que votarem em mim que eles viverão como nos Estados Unidos”.O comunista diz: “Prometo a todos que votarem em mim que eles viverão como na União Soviética”. Putin diz: “Prometo a todos que votarem em mim que eles… viverão”.

3. A minha viagem não seria viagem se não acontecesse um insólito. Descrevo em breves palavras. Quando fiz o check-in no hotel a solicita recepcionista diz-me “vamos fazer-lhe um up-grade”. Aceitei sem pensar no assunto. Uma vez colocadas as malas no quarto, desço para o pequeno almoço. “A sua mesa é aquela reservada”. Estranho um pouco porque não havia reservado nada, mas sento-me no lugar indicado. No momento do check-out pergunta a recepcionista: “o seu motorista já chegou?”. Como não tenho motorista – só o tive uma vez na vida, quando trabalhei com a Universidade de Varsóvia que me fez conduzir pela cidade num Jaguar topo de gama, mas isso é outra história – perguntei “motorista?”. “Não precisa de ser tão discreta. Nós sabemos quem é”. Well, eu nos momentos de lucidez julgo saber também quem sou. “E quem sou eu?”, pergunto. ” Trabalha para o Tribunal de Contas. Está no sistema informático”. Ah o sistema, esse velho conhecido. “Como é tão sigilosa deve ser investigadora”. Desisto. Este é o privilégio e o sortilégio de quem viaja: nunca ter dias monótonos.

4. Escrevo, estas palavras soltas no iPhone, à mesa do meu café favorito em Berlim, o Café Einstein, na Unter den Linden. Aberto em 1996 pelo galerista Gerald Uhlig tornou-se num daqueles raros locais onde o preço e honestidade da cozinha – magnifica a sopa de abóbora, a salada de queijo de cabra com nozes e a tarte de pêra – estão em harmonia, onde se pode tropeçar em Günther Grass a ler o jornal, ou na chanceler a conceder uma entrevista. Daqui vou dar uma volta a pé até ao Bundestag, sentar-me numa esplanada e aproveitar a luz de Novembro a mimar a luz de Lisboa. A vida é feita de círculos concêntricos.

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