O que fazer num domingo com uma hora adicional?

Arrumar a biblioteca pode ser uma provação ou um desafio, jamais um tédio.

Nos últimos anos reuni livros avulsos, para ser exacta 5734, com predominância para autores alemães, brasileiros, africanos – lusófonos e anglo-saxões – mais recentemente latino-americanos. África, o meu continente, estende-se pelas prateleiras com as dimensões do rio Congo.

Alguns livros são novos, outros herdados, outros descobertos em alfarrabistas, com cicatrizes que aprendi a aceitar como parte da sua história antes de mim.
Com cada um deles tenho uma relação, seja pelo lugar onde o comprei, pela pessoa que o ofereceu, pelas circunstâncias que motivaram a leitura. Sou egoísta com os livros, não gosto nada de os emprestar ( é como quem me arranca um dente a sangue frio).

Face aos meus livros sou um tatu-bola, enrolada sobre mim mesma, solitária perante o parapeito do mundo. E essa é uma solidão que consola, quando quero lamber as minhas feridas pego num livro, pois só o real é absurdo, a ficção é sempre possível.
“Aonde leva esta porta? Que jardim floresce do outro lado? Que labirinto?”, interroga-me a Alexandra Lucas Coelho. Fecho o livro com o marcador nesta passagem, coloco-o na prateleira dedicada ao Médio Oriente na vizinhança de um guia de viagens dedicado à Síria. É desolador pensar milhares de anos de herança cultural foram apagados do mapa.

Passo à prateleira seguinte, alinho os meus Veríssimo, pai e filho, os meus Rubens, Braga e Fonseca, o Guimarães Rosa, coloco o Drummond (que compartilha comigo o dia de aniversário) ao lado do Vinicius e do Bilac. Paro por momentos para ver fotografias da Amazónia e quase que sinto o abraço quente e húmido que acolhe quando desço do avião em Manaus.

Neste processo de arrumação descobri livros repetidos, muitas vezes na língua original (sempre que posso leio o original) e a tradução para português, ofertas de amigos bem intencionados e distraídos (a minha irmã ofereceu-me em dois aniversários diferentes o mesmo livro) e alguns tesouros, edições raras ou livros autografados pelos autores.

Gosto de guardar dentro de cada um deles fotografias, postais, recortes de imprensa. Construí uma espécie de diário caótico, “a vida vem em ondas como o mar”, espalhado pelas páginas dos meus livros. “Amadureçam as ilusões da vida/ Prossiga ela sempre dividida/ Entre compensações e desenganos”. E a leitura compensa, sempre.

Quando meu mundo está de cabeça para baixo, arrumar os livros – que nos últimos meses, devido a eu andar pela estrada fora como o Kerouac, formaram estalagmites em equilíbrio precário – suspende-me a tristeza. E suspende o tempo, porque quando dou por mim estou sentada no meu canto de leitura, tendo aberto no mão um livro que era suposto eu estar a colocar no seu lugar. Por mim os dias poderiam ter todos os dias uma hora a mais como este domingo.

PS- Perguntam vocês: “e conseguiu arrumar os livros”? Sim, com um autodomínio enorme e porque queria fazer contas de cabeça para saber quantos metros quadrados ainda tenho disponíveis para novas aquisições.

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