Ébola e histeria

Vivemos dias de verdadeiro circo político nos Estados Unidos. Bem sei que esta é a época dos circos montarem as suas tendas, mas ao menos que tragam trapezistas, acrobatas e malabaristas, e não o palhaço triste da  histeria. Eu explico.

Kaci Hickox é uma das heroínas na luta contra o Ébola. A enfermeira do Maine foi como voluntária  da organização “Médicos Sem Fronteiras” para a Serra Leoa. Na sua última noite na África Ocidental, confiaram-lhe uma criança que ela viu morrer dolorosamente. Completamente esgotada, física e psicologicamente, a enfermeira de 33 anos de idade regressou aos Estados Unidos.

Porém a sua recepção à chegada foi bem diferente da devido a uma mulher de coragem. Após uma viagem de quase de dois dias – e quem viaja pelo continente africano sabe bem as  incomodidades que isso significa – , mal pôs os pés no aeroporto de Newark, em New Jersey, conduziram-na uma pequena sala lateral, onde foi interrogada “como uma criminosa”. Posteriormente  Kaci  foi transportada de ambulância para o Hospital Universitário de Newark onde passará os próximos 21 dias numa tenda aquecida em quarentena forçada. Importa dizer que os seus testes ao sangue deram duas vezes negativo. Este tipo de procedimento, a quarentena forçada, já foi implementado em quatro estados norte-americanos: New Jersey, New York, Florida e Illinois.

Não é preciso ser-se Anthony Fauci, o imunologista chefe do CDC, Centro de Controlo de Doenças norte-americano, para se ficar estupefacto. “Este tipo de medidas dracónicas sabotam a luta conta o Ébola, porque tornam muito difícil que haja voluntários a viajar para África. A melhor forma de nos protegermos é travar a epidemia em África”. Óbvio não é?

Esta triste história é sintomática das relações do “primeiro mundo” com África de há décadas para cá: os governos dos países “ricos” e não necessariamente só do hemisfério norte (leia-se aqui países como o Brasil e a China também) atiram umas migalhas de ajuda ao desenvolvimento e, em contrapartida, dão guia de marcha às multinacionais que extraem tudo o que podem extrair e enchem as contas bancárias de muitos governantes africanos nos vários paraísos fiscais.

A histeria norte-americana ( e europeia) face ao Ébola  é, sobretudo, o resultado de uma crise de valores – políticos, sim, mas também éticos. Quando as cenas da desolação no continente africano começam a tornar outra vez incómodas nas televisões, convocam-se cimeiras onde ser o assunto deve ser “cuidado com a responsabilidade da comunidade internacional”. Enquanto os ocidentais fazem declarações grandiloquentes de boas intenções, Cuba e a Venezuela, países que não gozam da melhor das imagens a opinião publica e publicada,  e até a pobre Bolívia tem comportamentos exemplares, ajudando onde é necessário: no terreno.

Há uma tira da Mafalda que diz :”e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar. Folheei ontem, enquanto arrumava a biblioteca, o álbum África de Sebastião Salgado, sou da opinião que algumas daquelas fotografias deviam fazer parte de qualquer currículo escolar, pois como escreve Susan Sontag “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como moderar as chamas desse inferno. No entanto, já parece ser bom o facto de dar a conhecer, de ter alargado, o sentido que as pessoas têm de quanto sofrimento existe no mundo que partilhamos com os outros”.

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