Gentileza

gentileza

Recentemente apanhei um táxi no Porto, entre o Café Piolho e a Casa da Música.  Estava um dia chuvoso e desagradável, daqueles que convocam o mau humor. Durante os breves minutos da viagem conversei com o condutor, escutei a sua paixão pela arquitectura e pela cidade onde havia nascido. Quando chegámos ao destino, desceu do seu seu lugar,  abriu-me a porta do táxi e despediu-se de mim, não economizando um sorriso, “a senhora é uma simpatia”. Ganhei o dia.

Este episódio fez com que eu ficasse a pensar que a gentileza, o exercício de vestir a pele do outro, é algo tão precioso como subestimado.

Na loucura mansa  dos dias, o não dizer” bom dia”, o não segurar uma porta, o passar a frente de alguém numa fila, o molhar os peões no passeio, o dizer palavras ríspidas, o esquecer-se de retribuir uma atenção, a arrogância, parecem ter uma cotação alta na bolsa da “sobrevivência”.

Porque será que a delicadeza  parece acessória? Talvez por tantos a  confundirem com fraqueza. Não é. Pense. O seu dia melhora se alguém o acolhe com simpatia, seja no café, seja no supermercado ou no autocarro. O abraço apertado do colega de trabalho, o obrigado do amigo, as gomas colocadas sobre a secretária acompanhadas de um post-it, a mensagem no Facebook, são detalhes, pequenos, que nos iluminam o dia. Gestos que arrendodam os cantos agrestes da vida.

A gratuitidade da gentileza, o dar sem esperar nada em troca, torna-a numa espécie de insurreição num mundo materialista, num acto de resistência.”Por maior que seja o desespero/Nenhuma ausência é mais funda do que a tua”, escreveu Sophia. Nenhuma ausência é mais funda do que a ausência de humanidade. E é isso que a gentileza é, humanidade.

PS –  Já ouviram falar no Gentileza? Conhecia-lhe o nome de uma das músicas da Marina Monte e até pisado no Rio de Janeiro, desconhecia a sua história por detrás da música. Gentileza era um velhinho, meio louco, um poeta que pintou  os pilares dos viadutos da cidade, com os seus escritos, o mais famoso do quais, “gentileza gera gentileza”. A sua estética era a sua ética. Googlem.


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