Estados de alma

A estrada tornou-se num assombroso lugar, tomada pelo modo intranquilo da chuva. Sufocam-me as fragas do Marão e a cortina de água, o ramo de um braço de vento quase me atira da pista. Na rádio Anselmo Ralph canta “tu para mim és a única mulher que me completa”, com igual generosidade para todas as mulheres que o escutam.
A tempestade confronta-me com a imensidão do tempo, habitualmente tão curto, entre Vila-Real e o Porto. Vem-me à cabeça uma frase de José Tolentino Mendonça, “em tão pouco cabe a extensão de uma vida”.

A doença da minha mãe, a sua recuperação lenta e oscilações de humor – é terrível a desolação que a doença pode deixar, “não consigo encontrar a alegria”, diz-me com demasiada frequência – lembra-me que a vida é um pau de fósforo, por vezes curto ou “escasso demais para o milagre do fogo”.

A chuva continua a bater em desarmonia nos vidros, em cores de sombra, sinto uma tristeza que não pertence a lugar nenhum, talvez seja o silêncio do Outono ou a intensidade do medo de viver tudo num instante e não encontrar aquilo que estava onde antes existiu. O regresso ao intervalo da infância nem sempre é uma terra protectora.

Dou por mim a pensar em pessoas que perdi, no meu pai que se foi numa expedição silenciosa de onde não regressará, de amizades que se dissolveram como o último dia de Verão, por vagos motivos, a maioria das vezes por desinteresse, talvez por falta de tempo, sobretudo por esse pecado maior que é o orgulho. Sem coragem para perdoar somamos mágoas e o silêncios, a luz deixa de incidir e os intervalos do silêncio doem mais que palavras cortantes. Escassos propósitos os de reconciliação.
A rendição é sempre inesperada.

Sinto uma tristeza submersa enquanto deslizo pela estrada, os olhos buscam entre o nevoeiro um sentido. A vida também. Olho para uma realidade que não para.

Esquecemos-nos, esqueço, com demasiada leveza que só possuímos o que damos.

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2 thoughts on “Estados de alma

  1. É, Helena, tempos agrestes, anda por aí muita tristeza à solta. Bom para si contar com a cara e a coragem de uma domadora, não é para todos. E melhores dias virão, isso todos podemos pensar ….

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