Comoção sim, solidariedade não

Esta imagem, ao mesmo tempo real e irreal – comoção numa Europa que há anos não se ocupa senão de si própria – contém toda a ambição daqueles que acreditam que um imigrante não é uma estatística, tem um nome, um rosto, uma história desconfortável, desesperada.
Sexta-feira os navios pesqueiros saíram ao mar, não lançaram redes, mas coroas de flores. Uma homenagem aos mortos de Lampedusa. Há exactamente um ano a notícia do naufrágio de um navio com centenas de refugiados chocava a fortaleza Europa. Trezentos e sessenta perderam a vida nas ondas do Mediterrâneo. A dimensão da tragédia não permitiu que se virasse de imediato a página. Devastação, morte, luto – é a imagem de Lampeduza que emerge. “Hoje é praticamente impossível chegar à Europa de forma legal e segura”, as palavras são da comissária europeia Cecília Malmström, que reconhece que os migrantes, na maioria africanos, afegãos e sírios, se vêem obrigados “a entregar-se nas mãos dos traficantes da morte”. “A solidariedade entre os países europeus é inexistente quando se trata de acolher os migrantes”, acrescenta.
Como escreveu Paulo Moura, em “Passaporte para o Céu”, livro que devia ser leitura obrigatória, “estamos demasiado perto e demasiado longe. O seu sentido somos nós, o sonho europeu que à própria Europa já escapou”.
Desde o início de 2014 morreram no Mediterrâneo 3072 refugiados. Obsceno.


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