A candura pode ser perigosa

É de uma candura deliciosa. Uma norte-americana desenvolveu uma “app” que “garante” que o sexo é consensual e que a comunicação “funciona”. A ideia não é nova, nem revolucionária: evitar arrependimentos no dia seguinte ou abusos.

A aplicação móvel funciona do seguinte modo: antes do par passar à acção faz uma pausa, preenche um questionário que avalia a sobriedade das partes e responde à pergunta: “Are we good to go?”, ou seja  “podemos avançar?”. As possibilidades de resposta são três: “Não, obrigada”, “Sim, mas… precisamos de falar” e “Sim, estou pronto/a”.

Além das questões de ordem técnica que a app coloca, “olha querida/o  espera um pouco  vou só ali buscar o smartphone e já venho”  (cujo efeito afrodisíaco é semelhante ao uso de peúga branca ou a um homem burro), há questões de protecção de dados pessoais controversas –  uma  vez que  os utilizadores da Good2Go fornecem, de livre vontade, informações sobre com quem e quando dormiram, quão embriagados estavam  e, claro, o número de telemóvel necessário para selar o ”vamos” – e questões comunicacionais fundamentais.  Como se os limites entre os corpos  se tivessem tornado tão fluidos e indefinidos quanto a comunicação ampliada e potencializada pela tecnologia. Como se um simples “sim quero”, ou “não” (um não é um não é um não) fossem insuficientes.  Ao colocar uma app entre si e o seu parceiro, pertence-se ao mundo, a todo mundo e a qualquer um, porém,  talvez não a si mesmo. E isto causa-me inquietação.

Recentemente li uma coluna do escritor espanhol Jordi Soler onde este conta um episódio a que assistiu neste Verão, no campeonato juvenil de basquetebol de Barcelona. Tratava-se de um jogo da equipa mexicana de Oaxaca contra a francesa de Toulose. A partida era disputada por rapazes de doze e treze anos, com a particularidade dos mexicanos jogarem sem sapatos e os franceses terem sapatos desportivos de uma marca internacionalmente conhecida, desenhados especificamente para o basquetebol. Os miúdos mexicanos ganharam a partida. O que não aconteceu pela primeira vez, já ganharam diversos torneios internacionais, incluindo realizados na pátria do basquete os Estados Unidos. Os meninos de Oaxaca, uma localidade muito pobre, aprenderam a jogar descalços, para eles os sapatos são um estorvo, uma prótese que lhe tira velocidade e lhes dificulta o jogo.  De tanto aperfeiçoar-mos o sapato nas nossas sociedades tecnologizadas esquecemo-nos do pé?

Há tecnologia e apps usadas em série para nos impedir de pensar , houve um tempo em que as pessoas inteligentes usaram a literatura  e as palavras para pensar. Esse tempo está-se a esgotar-se.

Como escreve Jaime Gil de Biedma,  na hora de hierarquizar os elementos do amor “que os seus mistérios sejam os da  alma, mas o corpo o livro onde se lêem”. Sem apps, please.

A candura pode ser perigosa .

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2 thoughts on “A candura pode ser perigosa

  1. Ridiculo. Se não existe um minimo de confiança entre duas pessoas, impensável qq tipo de entrega, seja lá qual for. Simples assim …

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