O sistema

Afirmar que o rosto mudou de cor é uma convenção literária. Mas foi o que me aconteceu esta manhã no balcão de check-in da Avianca. “Não encontramos o seu voo no sistema”. “Como?” . ” Não encontramos o seu voo”. Argumento mostrando a versão impressa com itinerário Santa Cruz -Lima-Bogotá-Frankfurt. “Sim, eu sei que a senhora tem um bilhete e vejo-o a partir de Lima, mas não está no sistema a ligação Santa Cruz -Lima”, diz a não tão gentil senhora do balcão. Inspira, expira. Sinto no pescoço a respiração de irritação em crescendo da fila de passageiros que atrás de mim. Não me deixo desencorajar e tento um protesto. “Se consegue ver a ligação a partir de Lima certamente sabe que eu teria de chegar a Lima”.

Imensamente transtornada e num volume audível de Santa Cruz a La Paz a senhora do balcão diz: “não está no sistema, não pode voar”. Como prémio de consolação oferece-me uma caneta da Avianca. A palavra “sistema” ficará agora indelevelmente gravada na minha memória. Kafka temos umas contas a ajustar.

“Tem de ligar para a sua agência de viagens para resolver isso”, diz com um sorriso maquiavélico. Claro, uma excelente recomendação para se fazer relativamente a uma agência de viagens alemã ao domingo.
“Não sou só eu, não sou só eu”, reza o meu monólogo interior numa estratégia de auto-consolação.
Tento desatar o nó do problema. Ligo para a Lufthansa e procuro um voo alternativo. Nada, nadinha. Nem por Buenos Aires, nem por São Paulo. Tudo esgotado. Tento La Paz-Madrid. Nada.

Resignada regresso ao Hotel onde me recebem com um simpático” Bem vinda de novo, señora” como se fosse a coisa mais natural do mundo um hóspede sair às 4 da manhã e voltar às 9. Não tenho estatísticas confiáveis, porém desconfio que o “sistema” deve contratacar com frequência.

É bem verdade que o quarto do Hotel é agradável e nada melhor para dissipar a tensão e a ansiedade do que se estender na cama a ler um livro. O problema é que ontem houve um casamento no hotel . Apelo à vossa imaginação para visualizarem as cenas nada subtis que desenrolam no quarto do lado. Garanto-vos que é um daqueles casos em que a vida real ultrapassa a fantasia literária.

Saio do Hotel e vou até ao café que fica a duas ruas de distância. Atravessar uma rua em Santa Cruz é como mergulhar num local cheio de tubarões, sendo que os tubarões são menos agressivos. Passo a primeira rua, a ponte de madeira sobre o canal, onde faltam várias tábuas, passo a segunda rua e sento-me no café colombiano. Peço um bom capuccino e abro meu livro. Depois deste momento ohmmmm peço a conta e noto que não tenho o porta-moedas comigo. Num impulso deixo ficar o passaporte, o documento da imigração e o iPhone como garantia enquanto corro até ao Hotel. Chego à porta do quarto e, um clássico, o cartão está desmagnetizado. Inspira, expira. Passa-me em breves instantes pela cabeça que o meu iPhone equivale a quatro salários bolivianos. Quando regresso ao café o empregado sorri e entrega-me o passaporte e o telemóvel. “Recebe muitas mensagens, não é? Estive quase para lhe atender o telefone. Acho que ligaram do aeroporto”. Ai a minha vida.

PS-a novela continua
Digam Ohmmmm comigo.

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