Santa Cruz de la Sierra, finalmente

Apanho o avião na melancolia molhada de Frankfurt e aterro onze horas depois em Bogotá. Eldorado é um aeroporto bonito, arrumado, vivo, cheio de luz.
Agora estou aqui a contemplar El Market, loja soberba de café e chocolate, onde o cheiro adensa memórias – ai o café torrado nas leitarias de Lisboa antiga – e desperta os sentidos. “Quisiera ser chocolate pa’ derretirme en tu boca”. Agradam-me os grãos de café envoltos em chocolate e o carmesim da embalagem. Rendo-me e saio da loja com um saco de papel. Pesado.

Perdi a noção da hora. Viajo entre fusos horários. Espreito o iPhone, mas resisto ao impulso, os amigos reais e virtuais do Facebook ainda não acordaram, os da Europa, ou estão prestes a deitar-se, os a sul do Equador.

Já não tenho posição de leitura. Fala-se muito de ler e livros e pouco acerca das posições de leitura. Que fazer quando a mão adormece devido ao peso do livro? Ou quando não há almofadas confortáveis por perto? Pouso “Conversación en la Catedral”, o melhor romance de Vargas Lhosa e uma das mais extraordinárias viagens literárias à América Latina, e escuto. Gosto do espanhol latino-americano, despido de aspereza, alegre, usado com amor e que sabe a frutilla e leite condensado.

O écran anuncia o próximo voo. Despeço-me da Colombia com uma chávena de café forte. Sou incapaz de conceber a vida sem café. Não sei explicar porquê porém quando penso em café ouço o Chico Buarque: “Oh, pedaço de mim,/ Oh, metade afastada e mim/Leva o teu olhar/Que a saudade é o pior tormento (…)”. Boarding now.

Durmo todo o percurso entre Bogotá e La Paz. O passageiro do lado, um americano suave, toca-me no ombro depois do avião aterrar. Backpacker quarentão, louro, olhos de um verde-acinzentado, deslumbrante e deslumbrado pela Bolívia. Conversamos enquanto esperamos pelas formalidades de fronteira, nesse conhecimento íntimo e breve dos estranhos. Tem a destreza de quem maneja a arte da argumentação e a elegância de um intelecto treinado. “Não fica em La Paz? É pena”, sussurra-me ao ouvido. Passada a surpresa sorrio-lhe e despeço-me.

Preparo-me para esperar mais quatro horas pelo voo para Santa Cruz. Demasiado cansada para ler, viajo há uma eternidade, observo os traços magníficos dos bolivianos, os cabelos negros, as mantas coloridas das mulheres redondas e as polleras. O aeroporto fervilha de vida apesar de ser de madrugada.

Bebo mais um café, leio os emails do trabalho e as suas súbitas urgências, a resposta fica para depois, que a velocidade depende da latitude. O voo está atrasado. “Prendre son temps”.

Quando o Canadair chega percorro a pé a pista acompanhada pelo ronronar dos motores. Estão uns revigorantes dois graus em La Paz e eu vestida para um clima tropical. Um pedaço de céu separa-me de Santa Cruz. Abro de novo o livro.
Diz-se que o espaço diminui quando não damos pelo tempo.

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