Escravaturas

Estes são os factos:  a baiana Lília de Souza esperou sete horas na unidade da Polícia Federal do Salvador Shopping, para poder tirar a fotografia necessária à renovação do seu passaporte que expirava em Agosto. Quando finalmente chegou a sua vez, em vez de um profundo suspiro de alívio, um enorme constrangimento. Lília teve de amarrar a sua magnífica cabeleira afro porque o sistema não aceitava a fotografia. “O problema é o seu cabelo”. Achei muito estranho ouvir isso”, conta no Facebook, “estava chateada, mas disse “se não tem jeito, tá”. Aí peguei um elástico de borracha para prender o cabelo. Tenho uma relação muito forte com a minha identidade negra. Eu gosto do meu cabelo e, naquela foto, fiquei terrível”.

Episódios destes são recorrentes no Brasil e dizem muito acerca de um país onde a grande maioria negra e mestiça continua a ser discriminada, mesmo no futebol. O autor pernambucano Mário Filho escreveu que “Pelé completou a obra da Princesa Isabel (responsável pela abolição da escravatura no Brasil), porém a realidade contradiz o escritor a abolição ainda não se completou no Brasil. E pior, a maioria “adere” ao sistema.

O estereótipo contemporâneo preconiza: “cabelo esticado é sinónimo de classe”. Andando pelas ruas do Rio, de São Paulo –  e também pelas de Lisboa ou Maputo –  é cada vez mais raro vez uma mulher negra, mestiça ou branca, assumir os seus cachos, como se diz no Brasil, ou caracóis como se diz em Portugal. Algumas até morrem intoxicadas pela utilização de formol no processo de alisamento dos cabelos. Será isto casual? Acredito que não, mas que diz tudo sobre um imaginário em que a mulher é magra, peituda, bumbumzuda, depilada no hemisfério sul como rabinho de bebé e de cabelo liso e escorrido como as nórdicas.

Talvez não saibam o que fazem, mas não estará na hora de subverter a narrativa e acabar com os grilhões internos?

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2 thoughts on “Escravaturas

  1. Aí, eu já acho que é um exagero. A biometria pede rosto livre de óculos, maquiagem e…cabelo. Mesmo quem tem cabelo liso, tem que por pra trás. As pessoas tem que parar de pensar que tudo é racismo. Se a cabeleira dela, lisa ou crespa ou black power atrapalha a sua identidade, que está nos traços do rosto e não no tipo de cabelo, ela tem sim que prendê-la. Tem gente que faz de tudo pra aparecer na mídia.
    Lembro-me do caso de uma brasileira, cujo sobrenome é David. Ela esqueceu de pegar autorização do marido holandês pra poder viajar para o Brasil com os filhos. Quando a polícia alemã, já no aeroporto, disse que ela não poderia viajar, ela rodou a baiana e disse que aquilo era perseguição só porque ela tinha sobrenome judeu, e começou a dizer que eles estavam usando de racismo contro ela pra que ela não pudesse viajar. O show foi tão grande, que deixaram ela partir. Então, quando é conveniente, utilizamos daquilo que, em outra situação, faríamos de tudo pra passar despercebido. tsc tsc tsc. E outra coisa, esse negócio de tenho orgulho da minha raça só vale para os negros? Já sabemos que se um branco diz ter orgulho de sua raça, ele será considerado nazista, red neck, ku klux klan. Temos que manerar.

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    1. Discordo Arlete. Lembras-te de um austríaco que fundou uma “religião” espaguete ou pasta ? Na identidade dele ele aparece com um escorredor de massas na cabeça e conseguiu fazê-lo porque provou em tribunal que se tratava de uma “questão religiosa”. Eu vejo este episódio como racismo sim, não da polícia federal mas de um sistema que foi pensado para brancos de cabelo liso.

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