Diário da Copa – Xikunahity (Futebol de cabeça)

“Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade”, escreveu o Drummond de Andrade numa genial crónica sobre futebol, publicada em 1974 no Jornal do Brasil, que nada perdeu em actualidade quarenta anos depois.

Às 17 horas de Brasília o país pára, de Boa Vista a Blumenau, rói as unhas, abraça a bandeira e invoca todos os santos, orixás, bruxos, e feiticeiros. É difícil descrever para quem não está no Brasil o que se sente, como se vivem as últimas horas antes do jogo “mata-mata” com a Alemanha.

“Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura”. Os adeptos na sua impotência jogam mais que os onze em campo.

“Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo”. Falemos de outra coisa.

Recorda-de do espetacular golo de cabeça de Robin Van Persie contra a campeã do mundo Espanha? E se eu lhe dissesse que nos cafundós do Brasil não há um, mas vários Van Persie.

Muito antes de Charles Miller importar o futebol para o Brasil, já vários povos indígenas brasileiros praticavam há séculos desportos de equipa usando bolas. Um desses desportos é o Xikunahity, um avó do futebol, em que a bola só pode ser tocada pela cabeça. Usualmente num mergulho.

Praticado tradicionalmente pelos povos Paresis, Salumãs, Irántxes, Mamaidês e Enawenê-Nawês, de Mato Grosso, o Xikunahity é jogado por duas equipes que podem ter oito, dez ou mais atletas e um capitão. Joga-se num terreiro de areia para que a bola possa ganhar mais impulso.

No Xikunahity não existem golos. As equipes pontuam quando os adversários não conseguem cabecear a bola para o campo do adversário. A bola é fabricada de látex extraído da seiva da mangabeira, árvore típica do cerrado brasileiro. Alguns jogos chegam a demorar mais de meia hora antes que alguma das equipas marque o primeiro ponto.

“Eles se divertem p’ra caramba”, disse-me uma menininha que assistia ao meu lado a um filme no MAR ( Museu de Arte do Rio) dedicado ao Xikunahity. É isso aí: “se divertir para caramba” e (tentar) não esquecer que as meias-finais são apenas um jogo, porque o futebol, o verdadeiro, se joga na alma. E se ama por antecipação.

Note to self: hoje serás como a Suíça, neutra. Assistir a um jogo entre a Alemanha e o Brasil na Embaixada da Alemanha em Brasília vai ser um testes a todos os meus dotes diplomáticos. Ohmmmm.

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