Diário da Copa – Livraria Cultura

P1060235

É a hora antes do poente. O céu está cinza. Um vento gelado anuncia mais do que o fim da tarde na Avenida Paulista, é prefácio do Inverno. Há uma efervescência aqui. Gente apressada, vendedores de rua, mendigos, polícia, skates, vozes, carros, turistas. É  bom caminhar pela Paulista. Gostoso. A conversa rola fácil. Todo Brasil está em directo como nas novelas da Globo.

Junto ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), onde ao fim de semana se trocam figurinhas Panini como se o mundo tivesse acabado de acabar, não vi hoje o Sebo (antiquário) improvisado do Roberto.  Aos 41 anos Roberto do Nascimento encontrou uma forma de protesto contra as taxas aplicadas sobre a venda de livros: a anarquia. Não vende. Dá livros a quem passa. Escolha livre.

P1060486

Atravesso a Paulista. Entro no Conjunto Nacional. Esboço um sorriso. Todas aquelas palavras, todo aquele mar de possibilidades, de encantamento, de renovação do mistério é acolhedor, uterino. A deslumbrante Livraria Cultura, que era um cinema – o Astor,  no qual as senhoras mais conservadoras da sociedade paulistana, escandalizadas com as cenas eróticas de Fellinni rasgaram cartazes e partiram janelas – é uma montra de encandear leitores. É a maior livraria do Brasil, com um catálogo superior a três milhões de obras, espraiada por três andares.  Aqui também há uma efervescência. Por todo o lado gente com livros na mão, gente tatu-bola enrodilhada sobre um livro, folheando, comprando livros. Em rigor não existem sinônimos perfeitos. São Paulo não tem a Garota de Ipanema, mas olha que coisa mais linda, mais cheia de graça a garota que lê. São Paulo tem os que vão “na contramão atrapalhando o tráfego”, como na letra de Chico Buarque.

Se não fosse o horror indizível do nacional-socialismo talvez não existisse a Livraria Cultura. Como livraria surgiu em 1969, na  Rua Augusta, embora  no mesmo ano se mudasse para a Avenida Paulista. A fundadora, Eva Hertz, judia berlinense, chegou ao Brasil em 1938. Para fazer face a dificuldades económicas teve a ideia de alugar livros. Dispunha de apenas dez obras, em alemão. Rapidamente os livros circularam de casa em casa entre a comunidade alemã que vivia nos Jardins Paulistas. Mais tarde Eva, a quem muitos solicitavam sugestões de leitura,  decidiu  deixar o aluguer e passar a  vender livros. Hoje a Livraria Cultura acolhe cafés filosóficos, espectáculos de jazz e maratonas culturais.

Chego ao Hotel já de noite. Doem-me os dedos do peso dos sacos. Vou dormir com o Milton Hatoum. Perdoem-me a traição.

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s