Diário da Copa – divagações várias que passam por Ronaldo

Desconfiar do óbvio e recusar a banalidade foi talvez a mais importante a mais importante lição que o jornalismo me ensinou. Treinou-me também no exercício contínuo de resistência e apreciar como uma pedra rara a generosidade.

Por ser jornalista tive, tenho, o privilégio de conhecer diferentes geografias e ouvir a narrativa de muitas vidas sofridas, alquebradas, submissas, remediadas, abastadas, desfeitas, refeitas.

Pode parecer cínico porém aprendi a conceder que o sofrimento faz parte da condição humana. Que algumas vidas são um desejo que nunca se concretizará. Que outras nunca encontram o cadeado invisível que as amarra. Nunca consegui deixar de me comover, de sentir a garganta a contrair-se num nó apertado e de chorar de impotência.

Aprendi a admirar os não procuram álibi, os que navegam na contramão e os têm a capacidade de superar o sofrimento, a dor, de a sublimar em criação ou em dádiva.

Tantas e tantas vezes me atravessa a mente a imagem daquela mãe, num país africano, que me ofereceu um filho. Há generosidade maior que uma mãe prescindir de um pedaço de si para se agarrar a bóia dos desesperados que é a promessa de uma vida melhor para o filho?

Falando de desespero. A Folha de São Paulo publicou ontem um trabalho da repórter e escritora brasileira Eliane Brum sobre os meninos sem tempo. Um menino com nome de poeta dizia “não conto [o tempo]. Eu não conto a alegria e não conto a tristeza. Tenho o tempo que estou na vida”. Vinicius, o menino da Favela do Bom Jardim, em Fortaleza, vive com dois irmãos e nenhum adulto. Os país perderam-se. Crack. Cachaça. Vinicius da favela enfeitada com bandeirinhas verde e amarelas, como tantas outras por esse Brasil-continente fora, aos 15 anos não desaprendeu de chorar. Trabalha de dia, cuida da irmã de nove anos, e de noite vai para a escola de bicicleta. Driblando os traficantes. “Quando eu jogo futebol esqueço tudo”. Esse é o poder do futebol – o genuíno, não o da FIFA e dos seus milhões – e a sua generosidade. A de transformar a vida implacável de um menino num momento fugaz de alegria.

PS- Sabem porque admiro o Cristiano Ronaldo? Não é por ser apenas o Apolo musculado de abdominais perfeitos ou pela sua forma poética de jogar. Mas porque vejo no fundo dos olhos do futebolista o menino pobre, que saiu da Madeira aos dez anos, perseguindo um sonho e cumprindo um talento, com muito trabalho e muitas lágrimas. Esse menino no fundo dos olhos de Ronaldo é muito mais fascinante e complexo que o herói, é o Ronaldo-menino que inspira milhões de outros meninos por esse mundo fora. Fá-los sonhar, parar o tempo e ser felizes, ainda que por pouco tempo. Contam-se pelos dedos de uma mão os que têm este poder.

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