Havia um Müller no meio do caminho, no meio do caminho havia um Müller

Onde estava a 20 de Junho de 2000? Não se recorda? Quem não se interessa por futebol que vire a página, perdão navegue para outro local, e nos deixe com as boas memórias. Recapitulemos. Nesse dia a selecção portuguesa venceu por 3 a 0 a Alemanha, em Roterdão. É pavloviano: quando penso naquele jogo, ouço a canção “Haja o que houver” e sinto o sabor de mousse de limão.

Cada um de nós tem uma história, um hábito, um gosto, um cheiro, uma transgressão cometida em algum estádio, nalgum bar, em casa de amigos ao ver futebol. Há jogos que formam um corpo afetivo que é meu, teu, nosso. Um filme que fica se encenando dentro da gente por muito, muito tempo. Pode parecer imbecil, mas em poucos momentos tenho um sentimento de pertença como naquele de cantar, como se não existisse amanhã,  o hino antes do apito inicial.

Comecei o dia a trautear os Madredeus à janela do meu 18 andar em São Paulo, convocando as boas memórias e o seu sortilégio. Desço para tomar o “café da manhã”  e um alemão oferece-se para me emprestar a camisola oficial da selecção portuguesa.”É de 2000 e nunca foi lavada”. Declino a gentileza.

Alguns  minutos antes do início do jogo entre Portugal e a Alemanha chego à Casa de Portugal,na Avenida da Liberdade,  escoltada por uma brasileira e um argentino. Dores partilhadas doem menos. Verde e vermelho onde a vista alcança. No auditório as armas e barões assinalados entoam com as vogais redondas e doces do português do Brasil o hino, numa espécie de ensaio geral. Arrepiante. Dou uma e outra e outra entrevista. Sinto-me um pouco como a Alice do outro lado do espelho. As perguntas dos jornalistas brasileiros são clássicas: “não se sente dividida?”, “se a final for Brasil – Alemanha vai torcer por quem?”, “quem é melhor Cristiano Ronaldo ou Neymar ?”.

Não sei como é para si, para mim a essência do futebol é aquele aquele fugaz minuto antes da bola rolar. Nele os jogadores estão cristalizados como num gráfico. Quase sempre no futebol, como no sexo, o que se joga dentro da cabeça é o melhor.

No reino da táctica, sem erros, infortúnios, faltas, lesões, a hipótese alimenta a esperança, acelera o músculo mais forte que temos.Depois o arbitro apita, roda a bola e começa a vida.

O resto da história é conhecido. “Que dias há que na alma me tem posto/Um não sei quê, que nasce não sei onde; / Vem não sei como; e dói não sei porquê”.

A minha dor maior com Paulo Bento  é que ele coordena não apenas Cristiano Ronaldo e companhia, mas as nossas coordenadas afectivas. A alegria não se materializou, havia um Müller no meio do caminho, no meio do caminho havia um Müller.

 

 

 

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