Diário da Copa- 25 de Março # Dia 4

A rua 25 de Março é um epicentro de São Paulo e um pedaço de Médio Oriente. Desço-a com o “souk”a acelerar na cacofonia dos pregões, “pendrive, pendrive”, “depilador de nariz e orelha”, “Louis Vuitton”, das muitas vuvuzelas e apitos. Pela cabeça passa-me a melodia de Caetano ” quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto/ chamei de mau gosto o que vi, de nau gosto, mau gosto/ é que Narciso acha feio o que não é espelho”.
Nas pausas dos pregões o bruá de milhares de pessoas. Uma orgia de verde e amarelo. No ar sente-se a euforia própria dos grandes momentos, aqui onde bate o pulso do Brasil “real”, “tem cara de Copa”.
Bugiganga, bijuteria, falsificações, artigos de festa, disfarces de Carnaval, toda a panóplia do made in China, vestidos de gala e iPhones. “Se não há na 25 (de Março), não há em São Paulo” diz o paulistano.

Conhecida como a “rua dos árabes” – no final do século XIX imigrantes sírios, palestinianos e libaneses começaram a fixar-se nesta rua, porque o aluguer era muito barato, abrindo pequenos negócios – é, juntamente com a a Ladeira Porto Geral e as ruas adjacentes, hoje em dia, a importante zona comercial de todo o Brasil. Aqui se situam mais de três mil lojas e estima-se um volume de negócios anual de 10 mil milhões de reais (mais de mil milhões de euros).

Subo a Ladeira de Porto Geral abrindo caminho a custo. Ali bem perto da 25 de Março, na Praça Antônio Prado, existe o único lugar de São Paulo onde as pessoas que fazem fila não olham para os ecrãs dos telemóveis. Porquê? Tudo por culpa de um grupo de portugueses que fundou a Casa Mathilde, uma pastelaria especializada em doces conventuais portugueses. E os pormenores são a substância.Travesseiros de Sintra, pastéis de nata, pasteis de São Bento. Saudade declinada numa coreografia de ovos, açúcar, amêndoa e carinho.

Sigamos até à rua da Cantareira onde fica o “mercadão”. Inaugurado em 1933 o imponente edifício veio substituir o mercado a céu aberto que se realizava na 25 de Março. O Mercado Municipal de São Paulo, que foi cenário da novela das oito, faz parte do imaginário gastronómico da cidade. Lá se vende a mítica sanduíche de mortadela – que não tive a coragem de provar, vacilando face ao ameaçador meio quilo de mortadela, ladeado por queijo derretido e tomate-álibi – frutas tropicais expostas numa colorida aguarela, bacalhau que faria o Eça ressuscitar, portuguesíssimas alheiras, genuíno azeite, azeitonas perfumadas, uma espécie de caverna de Ali-baba de sedutoras iguarias. And don’t mention the bolinhos de bacalhau, nome de baptismo que induz em erro, deveria ser “bolões de bacalhau”.

Como escreveu o Luis Fernando Veríssimo, “não é todo o dia que se quer ver um pastoso Van Gogh ou ouvir uma crocante fuga de Bach, ou amar uma suculenta mulher, mas todos os dias se quer comer, a fome é o desejo reincidente, é o único desejo reincidente, pois a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba mas a fome continua, e se um fastio de Ravel é para sempre, um fastio de pastel não dura um dia”.

20140611-004249-2569119.jpg

20140611-004249-2569334.jpg

20140611-004248-2568464.jpg

20140611-004249-2569592.jpg


2 thoughts on “Diário da Copa- 25 de Março # Dia 4

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s