Diário da Copa – A feijoada da Clara #Dia 2

Ali no alto do morro, bem alto a vista é de cortar a respiração. São Paulo, a cidade-país, é um horizonte geométrico. Paralelepípedos rasgam o céu. Milhares de torres. De um condomínio em frente esvoaça um bandeira. Tecido esvoaçante que parte do 23 andar e termina no segundo. Sessenta e nove metros de comprimento por dezassete de largura: a dimensão do ser brasileiro com muito orgulho.

A vinte quilómetros do centro, vinte quilómetros reais este domingo, porque não havia trânsito, cem quilómetros sentidos durante a semana, fica o Bairro do Ó, na Freguesia da Brasilândia. Imortalizado por Gilberto Gil em Punk da Periferia, o bairro é, com os seus quatrocentos anos, um das mais antigos de São Paulo e que conserva as características de uma cidadezinha de interior. Há o Largo da Matriz, onde fica a Igreja de Nossa Senhora do Ó, e a vida gira em torno dele. Se não tivesse o tempo amarrado ao braço pensaria que o tempo tinha ficado congelado. Com uma ajuda da Prefeitura, as ruas do Ó, colorem-se com as cores da Copa. A que for eleita a rua mais bem decorada recebe a compensação de um “kit churrasco” para cem pessoas. Choppinho incluído.

Aceitei um convite para almoçar no Ó em casa de uma família com um sobrenome italiano, que soa como um espirro daqueles fortes, e com um abraço como só os brasileiros compartilhar. O casal que me recebe faz parte da maioria de brasileiros que há séculos constrói o Brasil, os emigrantes. Ele italiano, finíssimo, doutor em lei, ela portuguesa, de Botão, Coimbra, com mais anos de Brasil do que eu de vida.
Abertas as portas de casa e da cozinha, contadas as primeiras piadas sobre portugueses, brinda-se com uma caipirinha caseira. Cada brasileiro que conheço jura ter a receita da melhor caipirinha do mundo, da capirinha “santa” do Padre Marcos , em Bona, à capirinha do Júlio aqui no Ó. Só sei que estava uma delícia.
Mais arrisco dizer que a melhor feijoada do meu mundo até agora conhecido foi comida aqui no Ó à roda desta mesa brasileira-italiana-portuguesa, sei a partir daqui qualquer feijoada se tornou um desafio, da couve à linguíça.
À sobremesa voltei por momentos à Amazónia: creme de Cupuaçu caseiro, que fez os meus anfitriões ficarem até à uma da manhã a extraírem a polpa do fruto amazónico ( que é misturada com leite condensado e creme de leite e vira a antecâmara do paraíso).
O melhor ainda estaria para vir. No final da refeição a Clara estendeu-me um frasco de vidro azul. No seu interior pinhas, rosmaninho, giestas e outras plantas recolhidas pela bióloga em Portugal. O cheiro do Choupal condensado na naquela sala no Ó. A saudade dentro de um frasco.

PS- um obrigada especial à Ivana por me ter dado a conhecer a sua família tão acolhedora.

20140609-085922-32362423.jpg

20140609-085928-32368629.jpg

20140609-085924-32364523.jpg

20140609-085926-32366553.jpg

Anúncios

3 thoughts on “Diário da Copa – A feijoada da Clara #Dia 2

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s