Diário da Copa- São Paulo #Dia 1

IMG_15491. Há tanta coisa a germinar na minha cabeça que nem sei bem por onde começar. Não posso ter a ilusão de entender uma mega-cidade como São Paulo. A ideia de São Paulo é feita de fragmentos, de perspectivas em mutação constante e isso faz parte do encanto, do feitiço da cidade e também a sua maldição.

Se tivesse que nomear um conto que descrevesse São Paulo escolheria “A mulher variável” do Drummond.”Não sei o que tem essa mulher, que cada dia muda de cara(…) e me invade a sensação de conviver com muitas mulheres diferentes”.

Para facilitar falo da chegada. Aterrei em São Paulo num sábado de madrugada com a cidade submersa na garoa, a característica chuva. O trânsito seria aparentemente tranquilo. Seria. Não fosse a marcha (evangélica) por Jesus e o terceiro dia da greve do “metrô” (uma das várias que acontecem na cidade neste momento). Na sexta-feira a polícia usou bombas de gás e balas de borracha para desfazer um piquete grevista na estação Ana Rosa.

São Paulo é uma cidade engarrafada, literalmente, e não apenas nas primeiras horas da manhã de sábado. O metro paulista à hora de ponta não é uma antecâmara do inferno, é o inferno propriamente dito. Uma massa, geométrica, de pessoas, comprimida entre as portas de entrada das carruagens e as paredes.

Pago mais de 120 reais (cerca de quarenta euros)de táxi de Guarulhos ao Jardim Paulista onde fica o Hotel. Tempo que baste para fazer um update das notícias.

2. Vai ao rubro o debate entre a frente anti-copa, naovaitercopa# e o movimento vaitercopasim#. São Paulo, ou melhor a São Paulo que atravessei, divide-se entre hashtags. Graffitis recordam palavras de protesto, botecos, lojinhas , restaurantes pintam- se de verde amarelo com muito orgulho e com muito amor e preparam-se repetir todos os chavões da “terra abençoada”.

A Folha de São Paulo analisa a nova descida de Dilma Rousseff nas sondagens (34 por cento das intenções de voto) e a reprovação, irónica, do PT pela “rua”, falando em clima de “Maracanazano”social. Dado curioso: as manifestações dos filhos de Lula, geracionalmente, têm um tom furiosamente crítico face PT e Dilma.

Só em São Paulo, nos últimos meses paralisaram os professores, houve greve surpresa dos ônibus, manifestações pacíficas, protestos violentos contra a Copa, movimentos pelo direito à moradia (nas 12 cidades da Copa acordo com algumas ONG’s cerca de 250 mil pessoas vão ser afectadas pelos despejos), gerando um cotidiano atípico sobretudo para os moradores da periferia, tudo isto temperado por uma economia que começa a fraquejar e lança dúvidas sobre o futuro do emprego.

IMG_1587

3. Percorri a Avenida Paulista de fugida, principalmente fugindo das livrarias para não me arruinar logo no primeiro dia. O destino era o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o célebre Pacaembu, que será local de treino de algumas selecções durante a Copa.
Nas arquibancadas do estádio concebeu-se, em 2008, o fascinante Museu do Futebol brasileiro.
Impossível conhecer o Brasil sem conhecer o seu futebol, que se confunde com a identidade do brasileiro. E ninguém o escreveu tão bem como Nelson Rodrigues.”Num simples lance isolado, está todo o Garrincha, está todo o brasileiro, está todo o Brasil. E jamais Garrincha foi tão Garrincha, ou tão homem, como ao imobilizar, pela magia pessoal, os onze latagões tchecos, tão mais sólidos, tão mais belos, tão mais louros do que os nossos. Mas vejam vocês: de repente, o Mané põe, num jogo de alto patético, um traço decisivo do caráter brasileiro: — a molecagem”.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s